Pouca gente sabe ou fez questão de ignorar que o maior ícone religioso do Nordeste, o padre Cícero Romão Batista, o padim ciço, foi excomungado pelo Santo Ofício em 1917 devido a suas atividades em total dessintonia com a religião e desobediência frequente aos seus superiores hierárquicos, o que numa organização monocrática como a Igreja Católica é fatal. Justamente por isso, o fenômeno do padim ciço é um dos exemplos mais eloquentes do quanto anda distante a religiosidade popular e a igreja oficial.

A nova biografia do religioso, Padre Cícero – Poder, fé e guerra no sertão escrita pelo jornalista Lira Neto, (Companhia das Letras) esclarece os vários e conturbados episódios que envolveram a vida desse personagem controverso que se relacionava com jagunços e cangaceiros, tendo inclusive “concedido” a patente de capitão ao mais famoso bandoleiro nordestino, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Além disso, meteu-se nas lutas políticas do Ceará, “fez-se primeiro prefeito de Juazeiro do Norte”, elegeu-se deputado federal e vice-presidente (governador) cearense, acumulou grande fortuna.

Milagre em Juazeiro – Curiosamente, talvez o maior pecado de Padre Cícero, acusado pela Igreja de “mistificador, aproveitador da boa-fé do povo” foi justamente a atividade que transformou Juazeiro do Norte no destino de milhares de romeiros que vão cultuar o “santo”.

Lira constata que o padre tornou-se onipresente no Nordeste, sendo difícil encontrar um lar, principalmente no interior da região, sem uma imagem dele.

Como isso tudo começou, provavelmente pouca gente sabe. Lira mostra que a origem de tudo está na série quase interminável de “milagres” e atividades sobrenaturais que teriam ocorrido em Juazeiro no final do século 19 sob os auspícios de Cícero.

Uma personagem se destacou entre as beatas que diziam falar com santos e realizar viagens ao purgatório e ao céu: Maria de Araújo. Era uma protegida de Cícero que produzia o milagre de “transformar a hóstia consagrada em sangue de Cristo”.

O impacto no imaginário popular de um evento dessa natureza pode ser acompanhado pela narrativa de Lira Neto. Ele levantou todos os detalhes do caso que chegou a ter duas comissões eclesiásticas nomeadas pelo bispo de Fortaleza para comprovar ou desmascarar o “milagre”.

Os feitos de Maria de Araújo, replicados em outras beatas da região, levaram multidões e riqueza a Juazeiro, alçando Padre Cícero a uma espécie de porta voz celestial terreno na visão do povo. Acabou sendo sua desgraça religiosa, pois o caso se desdobrou na investigação que determinou sua excomunhão.

O livro de Lira mostra como o fanatismo e a ignorância são capazes de anestesiar multidões. É um fenômeno que repercute ainda hoje no Nordeste e pode se ampliar ainda mais, pois o Vaticano estuda a reabilitação do padim ciço.

A excomunhão foi suspensa em 1921, mas Cícero permaneceu suspenso de suas atividades religiosas para sempre. O movimento para a sua reabilitação se deve à posição pragmática da Igreja nos últimos anos, devido ao crescimento das seitas evangélicas que vêm conseguindo “roubar” milhares de ovelhas do rebanho católico. Nesse cenário de crise como abrir mão de um ícone como Padre Cícero que, mesmo expulso da Igreja, tem a imagem cultuada por católicos de todo o Brasil? Antes de se eleger papa, o cardeal Josepht Raztzinger que comandava a organização sucessora da Inquisição a “Congregação para a Doutrina da Fé” começou o processo que ainda tramita no Vaticano.

(A Tarde Online)

Anúncios