Perdemos a eleição. Entre as razões, um grave equívoco. E essa percepção é que Kassab parece não ter, deixando de aprender com o passado

 

UMA DAS lições que se estuda na psicanálise é a capacidade do indivíduo para aprender com seus erros e fracassos. Parece óbvio, mas não é. Constata-se tal falta de aprendizagem nas relações interpessoais e também na política, quando os erros próprios ou de antecessores são descartados sem nenhuma avaliação.

 

Lula, quando concorreu pela terceira vez à Presidência da República, ganhou não só pela conjuntura e pela bagagem acumulada mas também por repensar e redirecionar o que não correspondia aos anseios e receios da população.

 

A lógica vale para São Paulo, uma cidade desafiadora que, ao contrário do que se pensa, tem recurso de menos para os problemas que enfrenta. Acompanhando a gestão Serra-Kassab como cidadã, mas com a experiência de já ter governado esta cidade, constato o abandono do transporte, da limpeza, da merenda de boa qualidade e dos mais pobres.

A gestão de 2001-2004 foi responsável por grandes avanços e inovações na cidade. Apesar de tudo, perdemos a eleição. Foram vários os fatores: da campanha oportunista da oposição até um grave equívoco.

 

E essa percepção é que Kassab parece não ter, deixando de aprender com o passado. A situação, de forma alguma, é a mesma. Pegamos uma prefeitura endividada e abandonada nos dois últimos anos da gestão Pitta.

 

Tentando consertar tudo de uma vez, desencadeamos uma série de ações necessárias e importantes para enfrentar uma cidade arrasada. E entregamos a prefeitura organizada, com inúmeros projetos inovadores e fundamentais, como os corredores de ônibus, e com as finanças saneadas.

 

Situação bem diversa aquela e esta, incluindo a oportunidade de governar por oito anos. Pois bem. Nós recebemos a PGV (Planta Genérica de Valores) e o IPTU sem reajustes realizados nas gestões anteriores e corrigimos de forma integral, em um momento de enorme dificuldade econômica na cidade e no país. A PGV foi ajustada em 2001.

Deveria ter sido reajustada na sequência, para evitar uma paulada no contribuinte. Mas não o foi. O atual governo, por motivos eleitoreiros, não fez o dever de casa e, agora, tenta fazê-lo de uma única vez, sem aprender com a experiência passada, que mostrou a dificuldade dos cidadãos diante de um aumento tão vultoso.

 

 

A cidade carece desse reajuste. Não tê-lo feito paulatinamente compromete seu orçamento. Entretanto, o prefeito não se dá conta de que ajustar a PGV e o IPTU da forma que propõe fará sofrer uma parcela grande da população, pois esse aumento vai afetar de forma injusta e muito mais violenta a cidade toda. A experiência mostrou que devemos ser extremamente cuidadosos quando mexemos com o bolso do povo.

Com o leite derramado, ainda se pode aprender com as experiências anteriores e tornar a situação menos penosa para os paulistanos.

 

São Paulo é dinâmica. Nesses anos que se passaram, algumas áreas se valorizaram e outras perderam valor. Essa revisão é necessária tanto pela questão orçamentária quanto por justiça. Para tanto, foi criado o IPT U progressivo, que propõe que quem tem mais benefícios pague mais, e quem tem menos pague menos.

 

Entretanto, a cidade não é feita só de casas. Ela é habitada por pessoas, e essas pessoas, por vezes, embora morem em área que tenha se valorizado, não ganham o suficiente para manter sua residência com o aumento.

 

Alguns diriam: “Que se mudem, então”. Essa posição é equivocada, pois nada é tão simples -por uma questão de raízes e por não poder ser feito do dia para a noite.

No caso do centro, como a Nova Luz, onde alguns benefícios ocorreram, mas nada ainda resultou de concreto para os moradores e comerciantes, o aumento proposto de 80% é ridículo, pois se cobra o que deveria ser, mas não é a realidade. É impagável pelos que lá hoje habitam.

 

Faça-se o reajuste da PGV e diminua-se a alíquota cobrada de 1% para 0,8%, avalie-se os casos específicos de algumas regiões em que o sonho da prefeitura ainda não saiu do papel -e mesmo assim parte da população terá dificuldade em arcar com o resultado dessa imprevidência.

 

Governando com 41% a mais no Orçamento do que a gestão de 2001-2004, não dá para entender a incapacidade de aprender com o passado e a falta de sensibilidade política.

A Câmara aprovou em primeiro turno a proposta integral do prefeito, com aumentos que vão até 40% para residências e 60% para o comércio.

 

Seria bom que não somente o prefeito se desse conta do passado, mas também os vereadores. Como diria Wilfred Bion, um dos pilares da psicanálise, aprender com a experiência é fundamental para o desenvolvimento humano. Eu acrescentaria: para os políticos, essa não aprendizagem pode ser fatal.

 

MARTA SUPLICY foi prefeita da cidade de São Paulo pelo PT (2001-2004) e ministra do Turismo (2007-2008).

(Debate/Tendências – Folha de SP)

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