Amolador de facas

Feiras ainda têm bancas para amolar facas e consertar panelas. Amolador de facas percorre ruas com o mesmo carrinho desde 1970.

A cidade de São Paulo, que costuma ser uma referência de modernidade no país, esconde traços que podem surpreender. Em meio aos grandes centros financeiros e de compras que fazem surgir novas profissões a cada dia, a metrópole abriga trabalhadores que exercem atividades cada vez mais raras, mas que ainda resistem ao tempo.

Quem passa pelas feiras da cidade não terá dificuldade em encontrar um consertador de panela ou um amolador de facas. Para Manoel Antônio Pedroso, de 69 anos, que conserta panelas e fogões há 50 anos, a profissão está longe de acabar. “Não falta serviço. O principal que está faltando é qualificação. Está acabando sapateiro, artesão de panela, porque os cursos são todos particulares e custam mais de R$ 300 por mês”, diz.

Os clientes são tantos que Pedroso, mais conhecido como seu Manoel, trabalha de terça a domingo em feiras da cidade e ainda atende em domicílio às segundas-feiras. De acordo com ele, a profissão é cansativa, mas “dá para ganhar o pão”.

Segundo seu Manoel, o serviço exige qualificação e dedicação, mas é bastante recompensador. “Para você ter noção, os fregueses chamam a gente pelo nome. Já nem é cliente, é amigo. As panelas já não são só panelas, eles lembram da mãe, do avô. A panela tem valor sentimental”, diz orgulhoso.

Herança – Quem conserta panela ou fogões com seu Manoel não precisa se preocupar com o possível fim da profissão. Seu filho Marcelo Antônio Pedroso herdou o ofício. “Ele pegou amor pela profissão e gostou, porque você conhece pessoas, vai em restaurante, cada dia um lugar diferente. Isso é uma coisa que preenche a pessoa, cativa”, explica, acrescentando que pretende ensinar o ofício ao neto também. “É uma coisa que eu vou ensinar e vou fazer questão de pagar curso, independente de que carreira ele irá seguir.”

Marcelo Antônio Pedroso na banca onde ele e o pai consertam panelas (Foto: Gustavo Paiva/G1)

Já Geraldo Aparecido Borgo, alfaiate de 59 anos, diz não ter tido a mesma sorte. Dos cinco filhos que teve e criou com os rendimentos de sua alfaiataria em Santa Cecília, no Centro de São Paulo, nenhum seguiu a profissão do pai. Para ele, a profissão perdeu muito mercado, mas não vai acabar. “A clientela diminuiu, mas agora está voltando. O pessoal que estava comprando roupa pronta voltou a fazer sob medida.”, diz, explicando que as roupas compradas em lojas não podem substituir totalmente as feitas à mão pelo diferencial da qualidade.

Mudanças – Borgo, que é alfaiate há 47 anos, reconhece que muita coisa mudou em sua profissão neste período. “Mudaram os tecidos, a moda… Quando comecei, a máquina era manual, hoje é industrial. As peças eram chuleadas [acabamento dado nas bordas do tecido] à mão, hoje tem overlock para fazer isso.” Para ele, porém, o trabalho em si é o mesmo a as técnicas não mudaram. Por isso, ele ainda mantém alguns hábitos antigos. “Para algumas roupas como terno e terninhos, tiro as medidas e anoto à mão e não no computador.”

Para Annibale Giancola, a profissão não se transformou nada ao longo dos 53 anos em que trabalha como amolador de facas. O italiano de 73 anos, que veio para São Paulo ainda jovem, percorre as ruas dos bairros da Lapa, Pompeia e Perdizes diariamente com seu carrinho com apito para chamar os clientes.

Giancola aprendeu a profissão com os tios e os irmãos que o receberam quando ele chegou ao Brasil. Como não tinham estudado e mal sabiam falar português, ele e seus parentes encontraram no ofício uma forma de sobrevivência. “Meu tio inventou este carrinho para amolar as facas e depois fez um para mim. Cada um pegava um bonde e ia para um canto da cidade”, conta.

O carrinho que Giancola usa é o mesmo desde 1970 e os clientes já estão acostumados a ouvir o seu apito pelas ruas. O mecânico Gerson Tadeu Nhoncanse, um de seus clientes, conta que não sabe com quem irá amolar suas ferramentas quando Giancola se aposentar. No caso do amolador, as filhas não herdaram a profissão, mas pela disposição que ele mostra ao percorrer as ruas da cidade entre 7h e meio dia, de segunda a sexta-feira, ele não deverá parar tão cedo.

(Portal G1)

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