Com honras de Estado, a família do cearense Bergson Gurjão Farias finalmente enterrará, nesta terça-feira, 6, os restos mortais do guerrilheiro, morto em 1972. As ossadas dele, que era considerado desaparecido político, foram identificadas em julho pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos

Maio de 1972. A Ditadura Militar encontra a primeira base dos guerrilheiros do PCdoB no Araguaia. Sem perder tempo, prepara a emboscada. O alvo é o destacamento C, localizado em Caianos, na Região do Araguaia, Norte do País. A ofensiva fere a tiros de metralhadora o subcomandante “Jorge“, então com 25 anos. Levado para uma instalação militar em Xambioá (PA), o guerrilheiro é morto a golpes de baioneta (fuzil com uma lança na ponta) e “desaparece“ na história. Jorge, na verdade, é o codinome do cearense Bergson Gurjão Farias, o primeiro guerrilheiro assassinado pela repressão na região.

Durante mais de três décadas, Bergson foi dado como desaparecido político. Em julho deste ano, teve seus restos mortais identificados. A ossada foi recolhida há 13 anos – estava no cemitério de Xambioá (PA). Nesse período, dois exames já haviam sido feitos: o primeiro foi negativo, enquanto o segundo deu resultado inconcluso. Na próxima terça-feira, 37 anos depois da morte de Bergson, a família terá o direito de enterrar os restos mortais do guerrilheiro.

Entre os familiares, o sentimento é um misto de ansiedade e alívio com a proximidade do enterro. “Nesses anos todos, sempre soube que o Bergson estava morto. Mas quando recebi a notícia (sobre a identificação) só fazia me tremer e chorar“, relata, emocionada, a irmã Ielnia Gurjão, que veio da Flórida (EUA) para a acompanhar a solenidade. Para ela, a torcida agora é pela identificação dos outros guerrilheiros desaparecidos – a paulista Maria Lúcia Petit foi identificada na mesma época que o cearense.

Homenagem –  Bergson será enterrado com honras de Estado. De acordo com Ielnia Gurjão, a urna com os ossos foi trazida de Brasília em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB).  O secretário especial dos Direitos Humanos, ministro Paulo Vannuchi, veio na aeronave acompanhado de uma comitiva. Entre eles, o deputado federal José Genoíno (PT), que também esteve no Araguaia e foi preso na época em que Bergson foi morto, em 1972. Além dele, os parentes dos guerrilheiros cearenses mortos no Araguaia também já confirmaram presença no enterro e na homenagem que será prestada na ocasião.

Após a chegada, segundo Ielnia, a urnafoi levada até a Base Aérea de Fortaleza, onde a família teve um momento de privacidade. De lá, os restos mortais seguiram em caminhão do Corpo de Bombeiros até a Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC) para solenidade entre 14h30min e 15 horas. Por fim, a urna com a ossada seguirá para o Cemitério Parque da Paz. O sepultamento está marcado para as 17 horas.

“A família de Bergson Gurjão tem nesses dias um sentimento de alívio. São falas de conforto, depois de 37 anos de uma agonia, de uma busca, de uma dor. Agora, esse sofrimento fica mitigado“, destacou o ministro Paulo Vannuchi, uma das vozes, dentro do governo, que tenta levar adiante a discussão sobre a necessidade de passar a limpo eventos da época militar.

Fonte: O Povo Online