Apesar da melhoria de rendimento na base da pirâmide, os 10% mais ricos no Estado detinham 43,3 vezes a renda dos 10% mais pobres, em 2008. Em 2006, essa relação era de 61,5 vezes, conforme levantamento divulgado ontem pelo Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), do Curso de Pós-Graduação em Economia (Caen/UFC). Outro dado estarrecedor: os 10% mais ricos se apropriam de 43,90% da renda no Ceará, contra uma participação de 15,73% dos 50% mais pobres.

Flávio Ataliba, coordenador do trabalho, acrescenta que, no ano passado, os 50% mais pobres passaram a absorver 15,73% da renda familiar per capita média no Estado, contra 14,59% em 2006. “Isso é um indicativo do aumento mais que proporcional na renda das pessoas na base da pirâmide social em relação ao topo”, completa.

A melhoria na distribuição de renda, segundo ele, pode ser também constatado no fato de que os seis primeiros decis (faixas) aumentaram sua participação na renda total enquanto que os quatro últimos reduziram.

Outro ponto importante foi que os aumentos foram proporcionalmente maiores nos três primeiros decis de renda, no qual está a população que vive em situação de indigência.

A pobreza no Ceará, conforme o estudo, tem um perfil bem definido. Concentra-se no meio rural; entre mulheres; crianças de zero a 15 anos e com apenas 4,76 anos de estudo.

Cerca de 40,36% dos 10% mais pobres estão na zona rural do Estado, contra 30,89% na zona urbana e 28,75% na Região Metropolitana. “Houve aumento da população de pobres na área metropolitana em relação a 2006. Mas não se pode dizer que houve migração”.

Analisando os dados por gênero, as mulheres representam 53,38% dos 10% mais pobres, contra 46,62% dos homens. “Apesar deste dado, reduziu a participação das mulheres entre a proporção mais pobre, já que em 2006 era de 54,44%”.

Por faixa etária, a pobreza domina entre a população de zero a 15 anos, com participação de 47,64%. “Isto é uma bomba relógio porque você tem uma concentração dos 10% mais pobres entre uma camada da população que não gera renda, visto que não trabalha, ou não deveria trabalhar”, explica. O alento é que, em 2006, o contingente de crianças entre os 10% mais pobres era de 49,11%. A pesquisa mostra que os 10% mais pobres têm em média 4,76 anos de estudo. Os 10% mais ricos passaram 10,3 anos na escola.

RECUO DA DESIGUALDADE  – Programas do Governo não contribuíram

Os programas de transferência de renda do Governo Federal não contribuíram para a redução das desigualdades no Estado. De acordo com a pesquisa do LEP, entre os anos de 2006 e 2008, a renda proveniente do trabalho e da seguridade (social e privada) tiveram mais impacto na redução do Índice de Gini do que os programas sociais de transferência, como por exemplo, o Bolsa Família.

A renda do trabalho tem participação de 70,71% do rendimento familiar per capita médio no Estado (de R$ 352,55 em 2008). Nos últimos dois anos, sua contribuição para a redução da desigualdade foi de 1,23%. Já o ganho via seguridade era de 23,14%, contribuindo com 0,36% para a redução do Gini.

Já as transferências e aplicações representam 3,98% da renda familiar per capita média. Em 2008, contribuíram com apenas 0,02% para a queda da desigualdade cearense.

“O que está fazendo a desigualdade cair no Ceará é o mercado de trabalho. E a literatura econômica vem falando isso: que o Brasil está conseguindo reduzir a desigualdade não pelos programas de transferência de renda e sim pelo ganho real do salário mínimo”, resume Flávio Ataliba Barreto.

Para o economista, para reduzir as desigualdades, o investimento prioritário no Estado deve ser a educação.

Fonte: Diário do Nordeste

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