Trinta e um de março de 1964! Toda a imprensa noticiava o Golpe de Estado liderado pelos Militares que depuseram o Presidente João Belchior Dias Goulart. Rádio de pilha foi proibido. Permanecer em grupos era proibido. Livros sobre Marxismo e Leninismo eram procurados como agulha no palheiro. Pessoas eram presas sob alegações de serem comunistas, mesmo sem nunca terem participando do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Parentes de neocomunistas procuravam se afastar deles para se pouparem e se pousarem como amigos do novo Regime. Oportunistas se aproveitaram da situação, para se oferecerem à CIA (Central Inteligência Americana) e ao Comando “Revolucionário,” como delatores para tirarem proveito.

Quantos jovens pobres ficaram sem indenização? Não sabemos. Sabemos que centenas de jovens que foram perseguidos se obrigaram a refugiar para outros Estados, mudando, com enorme prejuízo, sua trajetória de vida. Qual foi o prejuízo causado pelo Golpe de Estado a esses jovens, e à suas famílias, impossível de se aquilatar.

Certo dia na casa do comunista Whashington, Carlos disse a ele que o Golpe de Estado deveria demorar apenas oito anos;

– Ah, companheiro! Esses militares vão ficar no Poder durante uns vinte anos.

Carlos, por exemplo, foi obrigado a largar tudo e mudar-se pra uma cidade pequena da Bahia. Havia feito um concurso para trabalhar no BANESPA (Banco do Estado de São Paulo), onde iria ganhar 14 salários mínimos, com chance de se promover a Diretoria do Banco e o seu vencimento chegaria a sessenta salários mínimos. Carlos, era membro da Juventude Comunista da Penha, em São Paulo. Com medo de ser preso e torturado, Carlos não hesitou e se mudou sem sequer, tomar posse no referido Banco. Muita gente perdeu muito dinheiro!

Quantos foram metralhados, em suas próprias casas? Quantos jovens foram jogados na vala comum lá em Perus, em São Paulo?

1978! O Congresso, sob pressão do povo, ainda no Governo do último Ditador General Militar João Batista de Figueiredo, votou pela anistia de todo cidadão que se envolveu nos embates políticos depois do Golpe de Estado, inclusive os Militares torturadores. Na época foi imposta uma condição para que se votasse a Anistia Geral e Irrestrita; Teria que se incluir, na lista de Anistia, todos os militares e para-Militares que estiveram a serviço do Golpe Estado e do Regime Ditatorial.

A Anistia não devolveu prerrogativas, salvo exceção; Cidadãos continuam escarnados e preteridos pelos donos do Poder. Quem era do MDB e depois PMDB, -Partido Político que abrigava todas as correntes contrárias à Ditadura, na época – ficaram a ver navios, com relação ao preenchimento de cargos nos Órgãos Públicos. Concurso não havia e quando havia algum não era divulgado.

Os melhores cargos sempre eram ocupados e são ocupados até hoje por amigos do Regime imposto pelos Militares de plantão. Até hoje muitos filhotes da Ditadura permanecem encastelados nos melhores cargos da República Brasileira. Muitos defensores do Regime de exceção já morreram, mas seus filhos e netos prosseguem, hoje sob a pele de “cordeiro,” embora com cara de lobo.

Anistiados foram alguns, embora nem sempre contemplados com a soberania nacional. Ainda por muito tempo, permanecerá a chaga da perseguição, da discriminação no cérebro de milhares de cidadãos que lutaram por um Brasil mais igualitário mais humano e mais democrata.

BENEDITO RUFINO DA SILVA é professor em Cuiabá.

Fonte: Midianews.com.br