PRAIA, 12 Junho 2009 – Arlindo, 67 anos, não só se descobriu seropositivo na terceira idade, como convive com o agravante de ter infectado a mulher de 60 anos; a jovem universitária Neusa foi infectada numa relação ocasional. Os depoimentos dos dois estão no livro SIDA – Doença dos Outros, do psicólogo Jacob Vicente, o primeiro livro a retratar o que é viver com o HIV em Cabo Verde.

Com a primeira edição em português esgotada, a segunda no prelo e já traduzido para o inglês e o francês pela Liga Africana Contra a SIDA, o livro vai ser comercializado nos 16 países que integram a instituição.

Quer seja o emigrante reformado, a jovem universitária ou a prostituta Sandra, todas as histórias de SIDA – Doenças dos Outros têm em comum o fato dos personagens terem sido infectados pela via sexual. Conforme Vicente, mesmo que 90 por cento das transmissões em Cabo Verde sejam por via sexual, os entrevistados “nunca pensaram que a doença chegasse a até eles”.

Um dos propósitos do livro, segundo Vicente, é mostrar à sociedade que a SIDA é uma doença sem rosto, que pode atingir qualquer um, seja de que classe social for.

“Escolhi este título porque quando você lê o livro percebe que afinal não, a SIDA não é a doença dos outros, pode ser a doença de todos nós. Todos estamos sujeitos aos mesmos riscos, e por isso é importante [adoptar] medidas de prevenção.”

Vicente, fala da migração, toxicodependência, prostituição, gravidez, discriminação, depressão e religião enquanto causas do aumento do HIV/SIDA em Cabo Verde neste seu primeiro livro publicado: “A ideia é que todos possam ser agentes activos na luta contra a SIDA”.

Conhecendo os seropositivos – A obra nasceu a partir da convivência do autor com seropositivos que ele acompanha e oferece apoio psicológico em uma associação de apoio a pessoas vivendo com a SIDA.

SIDA – a Doença dos Outros é voltado principalmente para os alunos do ensino secundário, já que sabemos que a maior parte da população não tem oportunidade de travar uma conversa com um seropositivo: O livro foi escrito de uma forma muito simples para que o leitor possa entrar na conversa e conhecer a realidade destes seropositivos”, explicou.

“Tentei trazer a realidade do HIV com entrevistas a estudantes universitários seropositivos, homossexuais, toxicodependentes, profissionais do sexo, pessoas que ocupam lugar de destaque na sociedade”.

Escrito em linguagem simples, o livro pode ser visto como mais uma ferramenta de apoio aos que no dia-a-dia lidam com pessoas vivendo com HIV/SIDA, além de trazer informações confiáveis, livres de preconceitos e aprofundadas: “Tentamos falar de coisas complicadas de uma forma simples, porque para além dos depoimentos falamos no livro de conceitos técnicos, números do HIV e informações sobre as consequências do HIV/SIDA.”

Vicente tem a ambição de mudar o comportamento dos cabo-verdianos através da informação: “O objectivo deste trabalho é tentar incutir nas pessoas a realidade sobre o HIV em Cabo Verde para que depois essa informação se transforme em mudança de comportamento”, afirmou.

“Ou seja, a partir das historias dos seropositivos, dos números disponibilizados e das informações sobre drogas e HIV, emigração, conseguir que as pessoas passem a ter uma atitude mais responsável”, concluiu.

Ele procura também chamar a atenção do governo pela situação em que vivem as pessoas vivendo com o HIV, para a discriminação a que estão sujeitos e a necessidade de se criar mensagens consistentes, usando a informação para proteger a sociedade cabo-verdiana.

Fonte: http://www.plusnews.org/pt/Report.aspx?ReportId=84826

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