Vítima de constrangimentos diante das câmeras do programa Sílvio Santos, a menina Maisa vem sendo o pivô de uma polêmica que envolve o SBT

Não é preciso assistir aos programas do SBT com frequência para conhecer Maisa Silva Andrade, 7 anos completados na última sexta, 22. Com seu modo despachado, à frente do programa infantil Sábado Animado, Maisa virou um hit na Internet. São muitas as compilações que circulam no site YouTube, com os melhores momentos da menina. Episódios como aquele em que ela corrigiu a pronúncia de um espectador-mirim arrancam gargalhadas dos internautas até hoje.

Sílvio Santos percebeu o potencial da garota e o tem utilizado para incrementar os índices de audiência de diversas atrações do canal, como o Programa Sílvio Santos, no qual Maisa ganhou até um quadro próprio, Pergunte para a Maisa. A estratégia potencializou a divulgação do SBT, já que, toda semana, novas tiradas de Maisa deságuam na web.

No entanto, nos últimos tempos, os vídeos têm deixado de ser assim tão engraçado em pelo menos dois deles. No programa do último dia 10, quando um menino fantasiado de monstro entra no estúdio, o susto dela é tão grande que a apresentadora mirim não consegue se controlar e sai correndo, chorando e gritando. Não satisfeito com o incidente, Sílvio Santos fez questão de relembrar o episódio na semana seguinte, arrancando novas lágrimas de Maisa, ao puxar um coro de “medrosa”. Tentando fugir, a menina corre para os bastidores e bate a cabeça em uma câmera.

O caso não passou despercebido para entidades como o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que encaminhou um relatório sobre os programas para o Ministério da Justiça. A ação já rendeu uma advertência ao canal, levantando a possibilidade de reclassificar o Programa Sílvio Santos de dez para 12 anos ou mesmo revogar a autorização de trabalho de Maisa. A assessoria do SBT não comenta sobre o assunto.

No Ceará, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca/CE) se manifestou favorável à advertência: “Em relação ao caso da Maisa, especificamente, trata-se claramente de uma violação de direito. Maisa não está sendo tratada como uma criança, com toda a peculiaridade que essa fase da vida requer, não está sendo vista como sujeito de direitos e sim como uma criança-objeto, que tentam transformar em um adulto em miniatura para provocar risos nos telespectadores e gerar lucros para a emissora de televisão. Neste sentido, é necessário, sim, que haja uma intervenção”, afirma a jornalista Aline Baima, assessora de comunicação da ONG.

Entretanto, a responsabilidade não cabe apenas ao SBT. Para a professora Inês Vitorino, coordenadora do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFC e do Grupo de Pesquisa da Relação Infância, Adolescência e Mídia (Grim), os pais de Maisa também têm sua parcela de culpa: “O que faz com que eu, que amo minha filha, seja capaz de viver uma situação dessas? Porque eu quero apostar no futuro dessa criança – e no futuro da família, a gente não pode ser ingênuo. Então, o sucesso da minha filha é o sucesso da família como um todo e pode inverter uma situação de exclusão social. Há uma linha de raciocínio muito ligada a isso e não há uma discussão, por outro lado, dos prejuízos psicológicos que uma criança pode passar à medida que ela se envolve muito cedo nesse mundo da fama”, analisa.

Por Débora Medeiros – Especial para Jornal O Povo

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