Afora as denúncias de caixa dois e do uso do dinheiro para compra de uma casa, alvo de apuração, os 29 meses de governo de Yeda Crusius (PSDB) no Rio Grande do Sul são marcados pela instabilidade política e por um ajuste fiscal duro, sempre sob fogo cerrado da oposição e de ex-aliados.

Campanha de tucana no RS é objeto de nova suspeita

São esses os três fatores, alternando-se em ordem de importância, que, desde o começo da atual gestão, em janeiro de 2007, têm levado o Estado a uma situação política tensa, com entidades organizadas pedindo o impeachment da governadora, a primeira mulher a comandar o Rio Grande do Sul.

Nem o fim de um déficit histórico nas contas públicas foi capaz de dar fôlego à tucana. Em um Estado onde a herança do trabalhismo de Getúlio Vargas (1882-1954) ainda se faz sentir e que teve o PT no comando na administração estadual de 1999 até 2002, o “choque de gestão” tucano transformou-se em mais combustível para a luta política.

“Estamos diante de um governo tipicamente neoliberal em plena crise do neoliberalismo. Nós não vamos aceitar isso”, afirma o deputado estadual Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre de 1997 a 2000 e um dos principais líderes da oposição.

O secretário da Fazenda, Ricardo Englert, rebate as críticas: “O décimo terceiro salário do funcionalismo há anos não era pago com recursos próprios. Em 2008, foi. Retomamos o pagamento de precatórios [dívidas da administração pública pagas a mando da Justiça]. Recuperamos capacidade de investimento.”

Para fazer o “choque de gestão”, Yeda instituiu um teto salarial para o servidor do Estado e propôs limitar gratificações para a categoria, o que desagradou o funcionalismo público. O Estado aumentou sua receita, cortou gastos e terá R$ 1,2 bilhão para investir neste ano.

“É uma crise constante, desde a posse. Aliás, de antes mesmo da posse. Digamos que há um vício de origem”, afirma o cientista social Benedito Tadeu César, coordenador do programa de pós-graduação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O pesquisador, assim como aliados e inimigos da governadora, se refere especificamente a dois episódios ocorridos ainda em 2006: a tentativa de aumento das alíquotas do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), para melhorar a arrecadação e equilibrar as contas, e o desentendimento com o DEM, partido de seu vice, Paulo Afonso Feijó.

No primeiro caso, a então governadora eleita contrariou seu discurso de campanha, de que não elevaria impostos. Ela encampou o projeto de aumento, mas foi derrotada na Assembleia, ainda na Legislatura anterior. O resultado foi a perda de apoio no empresariado, nos sindicatos e dentro de sua base.

Feijó, que é empresário, passou a vocalizar a insatisfação de sua categoria e do partido (por conta de espaços no governo) e se transformou em um dos principais críticos da gestão.

Derrotado no segundo turno pela tucana, o PT gaúcho iniciou uma oposição que tem nas denúncias de irregularidades seu ponto mais agudo.

“Yeda foi eleita sem base, sem apoio social, amparada em propostas novas que atraíram quem estava cansado da luta entre o PT e o polo mais conservador. Mas ela não soube compor, e o PSDB é frágil no Rio Grande do Sul”, diz César.

Em 2006, apesar da vitória de Yeda, os tucanos elegeram apenas dois deputados federais, contra sete do PT, cinco do PMDB, cinco do PP, três do PDT e três do PTB.

Na Assembleia, o PSDB elegeu cinco deputados, contra dez do PT, nove do PMDB, nove do PP e sete do PDT.

Desde a posse, a governadora alterou 21 vezes seu secretariado. No Legislativo, sofreu derrotas importantes, como a segunda tentativa de aumentar o ICMS e a abertura de uma CPI para investigar corrupção.

Agora, por conta das suspeitas que pairam sob a compra da casa onde mora, a governadora depende do PMDB e do PP para evitar a abertura de outra CPI.

O relacionamento com a sociedade organizada também é conflituoso. Yeda entrou em rota de colisão com os movimentos sociais e sindicalistas ao nomear o coronel Paulo Roberto Mendes, antigo inimigo dos sem-terra no RS, para o comando da Brigada Militar. Ele acabaria substituído após choques entre a polícia e manifestantes em atos contra a tucana.

Fonte: Folha Online