A iminência de um filho põe cada vez mais casais diante de um dilema que não encontra consenso na medicina: guardar ou não o sangue do cordão umbilical do recém-nascido, rico em células-tronco adultas.

De tendência no início da década, empresas que armazenam esse material passaram a gerar controvérsia e entraram em rota de colisão com o Ministério da Saúde, que incentiva a doação do sangue para o banco público, chamado Brasilcord. Os bancos privados, porém, prosperam, alicerçados em uma suposição – a de que a decisão dos pais pode salvar a vida de seu filho, no futuro – e duas certezas:

Não dá para esperar.

Só existe uma chance.

Para compreender a polêmica, coloque-se na seguinte situação, e decida:

Seu filho acaba de nascer. O obstetra, ao retirá-lo do ventre, traz com o recém-nascido o cordão umbilical que o nutriu na gestação e cujo destino, obrigatoriamente, é a lata de lixo. Antes disso, uma equipe pode se debruçar às pressas sobre o cordão e a placenta a fim de extrair-lhes – em um intervalo de tempo equivalente ao que você levará para chegar à expressão “tempo esgotado”, neste texto – pelo menos 70 mililitros de sangue.

A quantidade é pequena, mas parece tão preciosa que dois tipos de bancos disputam, no Brasil e no mundo, a primazia de armazená-la: os privados, nos quais o sangue fica à disposição do dono original do cordão – caso ele precise, um dia – e os públicos, de onde pode sair, gratuitamente, para ser injetado no paciente que primeiro necessitar.

Não é o sangue em si que opõe os dois modelos e gera controvérsia no meio científico, mas as células-tronco que ele contém. Elas já foram chamadas de células da esperança, células milagrosas, células que curam. No Brasil, chegaram a ser vendidas em pó – embora não existam desta forma – por charlatães que se aproveitam da ingenuidade e do desespero de pessoas doentes. É provável que a chamada medicina regenerativa, aquela que recupera partes lesionadas do corpo – como um cérebro isquêmico, por exemplo –, valha-se delas futuramente. Mas a única aplicação médica comprovada das células-tronco é mais antiga que Os Embalos de Sábado à Noite, refere-se a doenças sanguíneas, como leucemias e anemias, e costuma atender pelo nome genérico de transplante de medula óssea – que nada mais é do que a retirada de células-tronco da medula de um doador e a injeção delas em um receptor.

O sangue de cordão umbilical é usado como alternativa a esse tipo de transplante, daí que a rede Brasilcord funcione como um complemento ao Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). E como o uso de células-tronco no tratamento de outras doenças ainda está no campo da experiência, não se preocupe se você não sabe muito bem do que elas são capazes. Pese o esforço em descobrir, a ciência também ignora.

Matéria completa: Jornal Zero Hora