Novo teste ajuda a prever quais idosos vão sofrer de demência

Por Cristiane Segarto

Admiro profundamente o ofício dos médicos.Vivo me perguntando o que leva um jovem a enfrentar um vestibular dificílimo cujo prêmio é um presente de grego: plantões longuíssimos, salários péssimos (na grande maioria) e vida pessoal quase inexistente. Desconfio que a maioria dos médicos escolhe a carreira por pura vocação. Eles devem sentir um grande prazer quando conseguem aliviar o sofrimento e driblar a morte.

Talvez essa sensação não tenha preço. Se essa é a motivação, como se sentem os profissionais que lidam com doenças contra as quais há quase nada a fazer? Como administram fracasso após fracasso? Uma dessas doenças é o Alzheimer. É desolador acompanhar a decadência de uma pessoa ativa, inteligente, culta que no fim da vida se torna violenta, já não sabe o que diz, não reconhece ninguém, é despejada de sua própria história.

Um dos desafios dos médicos que buscam dar pelo menos algum conforto aos pacientes e seus familiares é encontrar formas de prever qual idoso vai desenvolver a doença. A psiquiatra Deborah Barnes, da Universidade da Califórnia, em São Francisco, criou um checklist que pode ajudar a indicar o risco de cada idoso de desenvolver a doença. Ela aplicou o teste a 3.375 pessoas com idade média de 76 anos. Nenhum deles tinha sinal de demência. Eles responderam a um questionário e receberam um total de pontos – de 0 a 15. Quanto mais elevado o score, mais elevado era o risco de Alzheimer.

Se você está interessado em tomar algumas precauções, acompanhe alguns dos fatores que fizeram parte do índice de Deborah e que parecem ter relação com um risco mais elevado de aparecimento da doença:

Idade avançada – Pessoas entre 75 e 79 anos receberam um ponto. Indivíduos entre 80 e 100 receberam dois pontos. “A idade é o principal fator de risco para o desenvolvimento de demência”, disse Deborah ao U.S. News & World Report. “Quanto mais velha é a pessoa, mais elevado é o risco”.?

Função cognitiva – Dois testes de atenção com tempo marcado avaliaram a função cognitiva. Uma baixa pontuação em qualquer um dos testes resultou em dois pontos por teste. Exercitar o cérebro é fundamental em qualquer idade e ainda mais na velhice. Desafie seus neurônios sempre. Há muitas formas de fazer isso: leitura, jogos de memória ou de palavras-cruzadas. Vale até mesmo mudar o caminho para o escritório de tempos em tempos. Evite a rotina e os atos automáticos, aqueles que desempenhamos sem nenhum desafio.

Peso – O índice de massa corpórea (IMC) costuma cair dez anos antes do aparecimento da demência. “No final da vida, as pessoas devem se preocupar mais com o baixo peso do que com a obesidade”, diz Deborah. Uma forma de aumentar a massa corpórea sem precisar comer mais é cultivar a massa muscular. Praticar exercícios com pesos na velhice não é garantia de nunca ter Alzheimer. Mas não costuma fazer mal, desde que o idoso tenha boas condições de saúde. Pessoas com baixo IMC receberam dois pontos na avaliação.

Genética – Pessoas com uma mutação no gene que comanda a produção de uma substância chamada de apolipoproteína E têm risco mais elevado de ter a doença. Testes genéticos identificam essa característica, mas eles não são 100% confiáveis. Muitos geneticistas não recomendam o teste porque as pessoas poderiam se alarmar desnecessariamente. Ainda assim, os voluntários que tiveram o teste positivo receberam um ponto.

Ressonância magnética – Irregularidades observadas em exames de ressonância magnética foram levadas em conta. Pessoas nessa condição receberam um ponto no índice. Disfunção na massa branca cerebral – que envolve as fibras que conectam os neurônios – é considerada um indicador do impacto da doença vascular. Para preservar a massa branca do cérebro, evite a hipertensão e o diabetes. A melhor forma de fazer isso é praticar exercícios e comer de forma equilibrada. Pessoas com ventrículos do cérebro alargados também receberam um ponto. Quando isso acontece é sinal de que o indivíduo tem menos tecido cerebral. É como se o cérebro estivesse murchando.

Espessura interna da carótida – Isso pode ser medido por meio de uma ultrassonografia. Se a parede da carótida tem espessura igual ou superior a 2,2 milímetros, a pessoa recebe um ponto no índice de Deborah. Dieta e exercício é a melhor forma de se manter longe dessa doença vascular.

Ponte de safena – Pessoas que passaram pela cirurgia de ponte de safena receberam um ponto. Isso não significa que o paciente deve evitar a cirurgia cardíaca para reduzir seu risco de Alzheimer. Sem a operação nas situações em que é indicada, o risco de morte é altíssimo. Novamente, a melhor forma de evitar problemas cardiovasculares (e, consequentemente, a cirurgia que aumenta o risco de Alzheimer) é manter uma vida saudável.

Teste da camisa – Os pesquisadores avaliaram o tempo necessário para o indivíduo colocar uma camisa e abotoá-la. Esse teste indica a função motora fina. Quem precisou de mais de 45 segundos recebeu um ponto.

Teste do álcool – É estranho dizer isso, mas pessoas que não bebem álcool parecem correr risco mais elevado de sofrer demência. Por isso, voluntários nessa condição receberam um ponto. Deborah, no entanto, ressalta que ao beber álcool regularmente não significa que uma pessoa vá conseguir evitar o Alzheimer. “Se você já bebe moderadamente, tudo bem”, diz. “Mas não comece a beber agora por causa desse estudo”.

É muito cedo para avaliar se a pesquisa de Deborah vai melhorar a vida dos pacientes e evitar que tantas famílias enfrentem o Alzheimer. Em todo caso, dicas de prevenção nunca são demais.

Fonte: Revistaepoca.com.br