Por Jaime Leitão

Os próprios políticos deveriam perceber que quem participa da política são pessoas, seres humanos. E que todos eles estão sujeitos a sofrer de repente de determinada doença e, caso isso aconteça, não gostarão de ser tratados como objetos descartáveis, que já não interessam ao sistema que representam.

 

O movimento de alguns partidos e de determinados políticos, logo após a ministra Dilma Rousseff ter anunciado que está em tratamento de um câncer, lembra uma guerra de hienas ou, como escreveu Clóvis Rossi na “Folha”, a atitude de abutres.

 

Na hora da entrevista coletiva dada pela ministra, junto com os seus médicos, no Hospital Sírio Libanês, alguns jornalistas exageraram ao perguntar à médica oncologista que atende Dilma sobre a agressividade do tumor e pedir outras informações constrangedoras para um doente, visto de forma fragmentada, não como indivíduo que está passando por um momento delicado. Parecia que ela não estava presente.

 

Logo depois, foram os políticos que passaram a cogitar da possibilidade de a ministra não ser mais candidata à presidência. É muito cedo para qualquer conjetura. Aproveitar-se de uma doença para mudar o processo sucessório é antiético e anti-humano. Queiram ou não, são colegas de partido ou, pelo menos, da mesma base aliada. Nesse momento, o que deveria ocorrer seria um movimento de solidariedade à ministra, não tramar a sua substituição, que não está sendo cogitada nem por ela nem pelo presidente Lula.
O grande problema da política é que ela provoca uma desumanização na maioria daqueles que a praticam. Parece que deixam de ter e expressar sentimentos e transformam-se em jogadores em um grande tabuleiro, com cada um se colocando como uma peça, pronta a devorar outra , ao menor sinal de fraqueza apresentado pela peça adversária. Ou até pela peça que está do mesmo lado.

 

Nesse cenário, amizade é uma palavra praticamente inexistente. Há no máximo o coleguismo, o corporativismo, que consiste em defender o colega quando ocorre alguma denúncia, para garantir no futuro que aquele que o defendeu no passado o defenda no futuro, diante de um processo que possa ocorrer. Que não seja exigido da ministra Dilma Rousseff, nesse período em que ela se recupera e se submete a tratamento quimioterápico, que ela atue como candidata, com agenda cheia, e que cada mudança no seu comportamento, diminuindo a carga de trabalho, não dê margem a especulações pela imprensa nem por parte de políticos que querem propor outro candidato para substituí-la. Os especuladores são as piores pragas, seja na política, na economia ou em qualquer outra atividade.

 

Especular é tramar, é lançar boatos para levar vantagem de maneira torpe e indigna. Os especuladores são nocivos à sociedade porque plantam a discórdia, o caos, o descontrole, para ganhar com isso.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação.
jaimeleitao@linkway.com.br)

 

Fonte: http://jornalcidade.uol.com.br/

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