Com ruídos em todos os cantos, não se pode tampar os ouvidos para Fortaleza. Raros são os momentos de silêncio e não adianta falar “psiu!”

Por Tiago Coutinho

O silêncio não existe. E ainda bem. Seria ilusão acreditar encontrar nele a tranquilidade. Ande a pé pelas madrugadas, em ruas vazias, sozinho e escutará as suas pegadas ou o fungado da sua respiração. É assustador e dá agonia. As únicas almas vivas são a sua e a dos vigias a cochilar com o radinho de pilha ligado. Na noite, o asfalto transforma-se em um negrume contínuo e quase infinito, rompido pelo som de um motor de carro.

Não suporto o silêncio e preciso rompê-lo, nem que seja com uma palavra. Contraditoriamente, sinto-me perseguido e incomodado pelo barulho. Quase sempre volto a pé para casa depois do expediente no jornal. Isso acontece, geralmente, no horário de elevado congestionamento, e ando por toda a avenida Domingos Olímpio, entupida de carros, buzinas e fumaças. Já perdi as contas de quantas vezes cheguei à minha casa, e meu celular acusava três chamadas não atendidas, estando ele no volume mais alto. É como se meu corpo se anestesiasse em meio ao barulho do trânsito. Poderiam me chamar de surdo, é verdade, mas, ao mesmo tempo, quando saio com meu MP3 e os fones nos ouvidos, a música não consegue eliminar o ambiente externo e escuto os motores dos ônibus, as freadas dos automóveis.

Haja zoada! – Cada caderno deste projeto traz a marca da subjetividade do repórter que o escreve. Minha primeira intenção era mostrar a força dos ritmos de Fortaleza. A audição, um dos sentidos mais sensíveis, aquele que nunca se desliga, capta todos os ruídos possíveis e vai alimentando a imaginação. Em pouco tempo, estava perdido nas inúmeras possibilidades de conduzir os ouvidos da cidade.

Meu objetivo então era dar ouvidos a assuntos que, pelo menos para mim, pouco aparecem nas páginas dos jornais. Infelizmente não consegui ineditismo em todos os assuntos abordados. Mas procurei sons significativos que representam um pouco do crescimento urbano acelerado de Fortaleza.

Conheci, então, o seu Francisco e a dona Chiquinha. Eles, há mais de 50 anos, moram na comunidade São Vicente de Paula, no bairro Dionísio Torres, em uma casinha humilde a menos de cinco metros do trilho do trem. Entrei, também, em meio à construção de um luxuoso prédio da Aldeota e, ao lado de pedreiros e marceneiros, escutei os sons de betoneiras, guinchos, foguetes e do vento.

Pedi ajuda a alguns especialistas e músicos para poder entender melhor como rege a sonoridade de Fortaleza. Fernando Catatau, vocalista da banda Cidadão Instigado, mandou de São Paulo, por meio de um desenho, suas lembranças dos sons da sua terra natal. Os professores Dilmar Miranda e Consiglia Latorre escreveram sobre as paisagens sonoras, e o arquiteto e urbanista Marcondes Lima desabafou sobre o descontrole acústico dessa cidade.

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