Muitos mentem para se defender ou expressar um desejo. Caso da brasileira que vive na Suíça causou perplexidade.

Tivemos recentemente uma história que deixou muita gente perplexa: o caso da brasileira Paula Oliveira, de 26 anos, que vive na Suíça. Com o corpo todo marcado por um objeto cortante, ela disse ter sido atacada por um grupo de neonazistas, que a torturaram numa estação de trem. Disso, segundo Paula, resultou o aborto de uma gestação de três meses de gêmeos.

Após muita confusão, a própria vítima do ataque declarou que tanto a agressão quanto a gravidez foram forjadas _algo já suspeitado pelas autoridades suíças. Bem, como dizem, a mentira tem perna curta.

Mas é praticada pela maioria das pessoas, se não todas, inclusive pelas crianças e adolescentes. Algumas mentiras são tão contadas que até parecem verdade. E, muitas vezes, perde-se a noção do que é ou não real.

Sem entrarmos em seu aspecto patológico, fica a questão do porquê de as pessoas usarem a mentira. Provavelmente, isso se deve a dois motivos básicos: para que as pessoas se defendam de algo ou para expressarem um desejo.

Com relação à expressão de um desejo, muitos já presenciaram pessoas dizendo determinadas coisas que têm ou fizeram e que sabemos não serem verdade.

Recordo-me de um garotinho de uns sete anos que tinha uma condição financeira precária, mas dizia que o pai tinha cavalos e carros caros. Provavelmente, isso era o que gostaria de ter: um pai que tivesse coisas caras e que lhe desse algum status.

Elementos da realidade – Diante de uma situação assim, quando percebida pelos pais ou professores, sem desvalorizar a criança chamando-a de mentirosa, o melhor é não alimentar sua mentira. Pode-se dar a ela elementos da realidade para que, por si só, possa perceber que o que diz não é verdade. No caso descrito, poderia ser dito a ele que essas coisas são caras, sendo necessário muito dinheiro para tê-las.

Ou até apontar-lhe o desejo de que as coisas fossem do modo como descreveu. Mas que não são. Em outras palavras, não a desconsiderar dizendo ser mentirosa e lhe oferecer uma compreensão de suas necessidades.

Sem ser o caso desse rapazinho, a mentira pode surgir para a pessoa não ficar deslocada. Por exemplo, dizer que conhece determinados lugares, que nunca foi, quando participa de uma conversa que gira em torno de viagens. Ou que possui determinados brinquedos que não tem. As vezes, as pessoas inventam terem coisas que nem existem.

Em situações assim, também é importante mostrar-lhe seu desejo de ser tão interessante quanto o outro, que, em seu modo de enxergar as coisas, é mais que ele (o que não deixa de ser uma defesa também). E apontar-lhe o que possui, ajudando-a a valorizar suas coisas e história.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

 Fonte: G1