Há mais ou menos 10 anos atrás, o jornalista Boris Casoy entrevistou o então líder do PMDB, Michel Temer, e a primeira pergunta foi: “deputado, qual a configuração do partido hoje? Pois ele me parece mais um saco de gatos”.

A tal pergunta parece bem atual se vermos a situação do PMDB hoje. Recentes declarações do senador Jarbas Vasconcelos, de que o partido se tornou “um antro de corrupção e clientelismo”, ainda repercutem no meio político. O PMDB não é nem sombra do que foi um dia.

Fundado inicialmente como Movimento Democrático Brasileiro – MDB, foi criado juntamente com a Aliança Renovadora Nacional – ARENA, partido de situação da época do governo militar. O então MDB virou refúgio político de opositores do regime, de gente como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, pessoas que lutaram para o pleno restabelecimento democrático que vivemos hoje, com eleições livres e diretas para todos os cargos públicos.

Incorporando o “P”, virou Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Os anos foram passando e outros partidos de oposição, como o PT de Lula, o PSB de Miguel Arraes e o PDT de Leonel Brizola, foram ocupando os espaços ideológicos que não puderam ser preenchidos nos tempos de ditadura militar. O PMDB foi se incorporando ao poder até estabelecer uma relação quase simbiótica com ele. Mas não é, nem de longe, uma perfeita simetria. Quando se envolveu no poder, o partido não tomou o cuidado de não se “contaminar” por ele e foi reunindo figuras nefastas da politica nacional e se aliando a partidos como o antigo PFL, hoje Democratas, que um dia foi a ARENA, e o ultra-neoliberal PSDB, de Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, se um militante dos primórdios do PMDB acordasse de sua câmara criogênica, não acreditaria. O outrora membro do velho PDS, legenda que sucedeu a ARENA, partido que era a sustentação do governo militar, José Sarney, ex-presidente da república, o homem que, em 1984, mais se empenhou na derrota da emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente – para depois estar de mãos dadas com Tancredo Neves na eleição indireta, em 1985 – é hoje o presidente do senado federal e senador pelo PMDB do Amapá, sem falar na sua mudança de domicílio eleitoral, pois deve ter feito tudo que se possa imaginar pelo Maranhão e agora milita pelas cores do Amapá. Pobre política nacional… Enquanto isso, lá em São Luís, sua filha Roseana Sarney está para ocupar o governo do estado, no lugar do governador cassado pelo TSE, Jackson Lago/PDT.

Os escândalos políticos têm sacudido a vida do partido. O mais recente deles envolveu o ex-presidente do senado, Renan Calheiros. Teve de tudo. Amante, filha fora do casamento, provável uso de dinheiro público, páginas da Playboy, etc. Detalhes sórdidos à parte, o senador Renan Calheiros estava politicamente morto, mas eis que ele ressurge das cinzas como a fênix mitológica, e com uma manobra obscura e espúria, vota por três senadores – isso mesmo, votou por três – e reconduziu ao poder nada mais, nada menos do que Fernando Collor de Melo. O ex-caçador de marajás agora é o presidente da importante comissão de infra-estrutura do senado, comissão esta que cuida, entre outras coisas, de projetos de suma importância do governo, como as obras do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. Collor derrotou a senadora Ideli Salvati/PT-SC, por 13 votos a 10. Detalhe: os três senadores “substituídos” por Renan, votariam na senadora catarinense… Mas isso está dentro das regras? Não sei. Consultem o regimento interno do senado. Deve ter alguma coisa no site.

Curiosamente e coincidentemente, o “ressurgimento” das cinzas de Renan Calheiros se deu justo numa quarta-feira. Esse tal de carnaval não acaba nunca…

Ridículo, tudo isso.

Fonte: http://www.folhadoprogresso.com.br/

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