Se há uma constância no governo Yeda Crusius (PSDB), além do gerencialismo e da aplicação de medidas administrativas acordadas com o Banco Mundial, é o fato de estar constantemente sofrendo bombardeio de fatos midiáticos ou judiciais transformados em peças políticas. Na 5ª, 19 de fevereiro, às vésperas do Carnaval, chegou à vez das lideranças locais do PSOL darem sua cota de ataques aos tucanos no pago. O motivo gerador da longa entrevista coletiva foi um caso de polícia. Trata-se da morte do ex-representante do Rio Grande do Sul em Brasília, Marcelo Cavalcante. Encontrado seu corpo no Lago Paranoá, todavia a causa mortis não foi desvendada.

Segundo os integrantes da sigla de Babá, a revelação de denúncias graves, de crimes eleitorais e de governo, deu-se a partir da perda da vida de uma pessoa pública que estava prestes a depor. Já o Ministério Público Federal, negara a versão de que Cavalcante estaria negociando a delação premiada e que faria um depoimento grave logo após o carnaval. O que me chamou a atenção no conteúdo da entrevista, além da gravidade das denúncias, foi o risco político generalizado. Os nove fatos citados, com riqueza de detalhes, não foram acompanhados de prova material. O PSOl não disse que as tinha, mas que ouviram os relatos de fontes que tiveram acesso a vídeos e gravações. A partir daí, entramos no terreno das conjecturas.

O risco político existe para denunciantes e denunciados. O efeito das falas de Luciana Genro e Cia. é mais que sério. Se comprovada ao menos uma das denúncias, já há motivo de sobra para pedido de impedimento de Yeda Crusius. Se os fatos inexistem, então a reputação da nova legenda de esquerda parlamentar periga cair no descrédito. Do entorno tucano, a reação foi distinta. O Piratini tirou uma nota tímida e pouco agressiva. Bem diferente da reação imediata contra a campanha de outdoors promovida por sindicatos de servidores públicos, cujo mote era a exposição do rosto da governadora. Dois pesos e duas medidas.

Cabe uma reflexão. Se o PSOL não tivesse tido contato com aquilo que disse ter visto, seria tão irresponsável a ponto de afirmar em público tais acusações? Como o ônus da prova é de quem acusa, a legenda de Heloísa Helena está diante do melhor e pior dos mundos. Se errar, perde capital político por cair em descrédito. Caso acerte, toma à frente em um conflito político num estado onde sequer tem um deputado estadual. O ano começa no sul com um dilema político na forma de enigma jurídico-policial.

Bruno Lima Rocha é cientista político (www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@via-rs.net)

Fonte: O Globo