Sobram partidos e falta ideologia no quadro político brasileiro. Num cenário com 27 agremiações legalmente reconhecidas pela justiça, especialistas dizem que sete, oito no máximo, bastariam.

Nas eleições municipais concluídas no último mês de outubro, cerca de 50% de todos os votos para prefeito no Brasil concentraram-se num pequeno grupo formado por três partidos políticos: PT, PMDB e PSDB. No Ceará, as mesmas siglas e mais o PSB conquistaram 49,9% das vagas em Câmaras Municipais de todo o Estado. Mais que revelar a polarização da preferência do eleitorado, os dados cedem pistas sobre o perfil do sistema partidário brasileiro, composto por nada menos que 27 siglas, de acordo com registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Para cobrir todo o arco-íris da ideologia, bastariam sete ou oito partidos que existem no Brasil”, defende o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UNB). Além do PSB e das siglas que saíram vitoriosas das eleições majoritárias de 2008, ele cita ainda DEM, PCdoB, PPS, PSol e PRB como exemplos de partidos que conseguem sustentar – pelo menos em tese – uma programática ideológica. A mesma opinião é compartilhada pelo professor Valmir Lopes, da Universidade Federal do Ceará (UFC), para quem “de fato, nós só temos de oito a 12 partidos que realmente contam, que têm voto, visibilidade, e que conseguem aglutinar pessoas em torno de seus programas”.

Em discussão –  Para os dois estudiosos, a variedade de siglas, cores e bandeiras partidárias no Brasil também está longe de representar pluralidade de expressões políticas. Grande parte das siglas serviriam apenas para engrossar a sopa de letras em que se transformou o sistema partidário no Brasil.

Ao ser questionado pelo O POVO sobre o nível de qualidade de nossas 27 legendas, Fleischer disparou, entre risos: “muitas delas são pequenas empresas, grandes negócios”. Ele alertou para a existência dos chamados “partidos de cartório”, que funcionam como instrumento burocrático para acolher determinadas candidaturas. “Se o sujeito é filiado a um partido grande, onde ele sabe que não vai ser lançado candidato, pode migrar para um partido nanico e garantir participação na disputa eleitoral”, explicou. Um segundo grupo seria formado pelos “partidos de aluguel” – que, a cada pleito, dançam conforme a música e moldam seus posicionamentos para garantir vantagens e servir aos interesses de determinados blocos políticos.

Entre os possíveis responsáveis pelo surgimento de partidos pouco comprometidos com o debate público, a pesquisadora Cristiane Leyendecker, do Instituto de Ciências Políticas da UNB, aponta o sistema de lista aberta, utilizado em eleições proporcionais (para vereadores, deputados e senadores) no Brasil. “Nesse modelo, o eleitor tem a oportunidade de individualizar os votos. Ele tende a votar no sujeito, no candidato, sem prestar atenção no partido. O partido passa a não ser o mais importante”, argumentou.

Fonte: http://www.opovo.com.br/opovo/politica/856740.html

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