Pessoas superestimam sua reação negativa a comportamento racista. Preconceito inconsciente pode estar por trás de passividade.

O que você faria se presenciasse uma cena de racismo explícito? Se crê que a sua primeira reação seria se rebelar contra a injustiça e repreender o responsável pelo preconceito, pense de novo — porque, em geral, não é isso o que as pessoas fazem, de acordo com um estudo feito por pesquisadores canadenses e americanos. Segundo eles, enquanto na teoria quase todo mundo se diz contra o racismo, na prática bem menos gente toma uma atitude contra a discriminação.

Seguindo uma longa tradição dos estudos nessa área, e a óbvia necessidade ética de evitar situações reais, os pesquisadores liderados por Kerry Kawakami, da Universidade de York (Ontário, Canadá), pediram a ajuda de atores, um negro e um branco. Eram os chamados confederados — pessoas que fingem ser participantes normais de um experimento de psicologia, mas na verdade são agentes infiltrados pelo cientista.

No experimento, voluntários de verdade que não fossem negros chegavam a um laboratório, onde eram apresentados aos confederados, um negro e outro branco. Em dado momento, o ator negro pedia licença para ir buscar seu celular dentro do laboratório e esbarrava de leve no joelho do confederado branco. Aí, três coisas podiam acontecer: o ator branco não dizia nada; fazia um comentário “moderamente racista” (“Odeio quando negros fazem isso”); ou “extremamente racista” (“Que crioulo desastrado”).

Teoria e prática – A chave do experimento é que, em alguns casos, os voluntários só liam uma descrição desse fato ou, no máximo, assistiam a um vídeo da cena; e, em outros, presenciavam a situação toda. Em ambas as situações, tinham de escolher com qual dos confederados iriam participar de um teste, além de preencher um questionário sobre seu estado emocional, negativo ou positivo.

O que aconteceu é que, quando só ficavam sabendo da situação, as pessoas relatavam muito mais sentimentos negativos e diziam preferir quase sempre o ator negro como companheiro de tarefa. No entanto, diante da situação real, tudo se invertia: havia relativamente pouco estado emocional negativo relatado, e o ator branco era o preferido como parceiro.

Os pesquisadores canadenses atribuem o resultado a uma provável falta de interiorização do antirracismo, ou seja, as pessoas conscientemente achariam que o preconceito é errado, mas inconscientemente não se sentiriam tão ofendidas quando o presenciam. Já Eliot Smith, da Universidade de Indiana, e Diane Mackie, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que comentaram o estudo na revista especializada americana “Science”, sugerem uma explicação diferente.

Fonte: Portal G1