Por César Costa de Araújo*

Veja também a pesquisa realizada pela Fundação Seade e pelo Dieese sobre o rendimento do negro em comparação ao não-negro.

Folha : renda do negro é metade da do não-negro

dia_da_consciencia_negra1A eleição de Barak Obama como primeiro presidente negro dos Estados Unidos parece não ter provocado muitas reflexões sobre a situação do negro no Brasil. É como se não tivéssemos nada a ver com a trajetória de um imenso grupo étnico que sofreu durante séculos a escravidão e o preconceito que até hoje é refletido em nossa realidade. É como se a luta de Obama por seu sonho, não fosse também a luta de muitos Obamas no Brasil. Não necessariamente o sonho de se tornar o cidadão número um do país, mas sobretudo para ascender socialmente e ocupar um espaço de destaque na sociedade, superando injustiças e desigualdades.

O Novembro de Obama também é o Novembro de Zumbi dos Palmares. No dia 20/11 celebramos sua história de luta pela liberdade e contra a exploração da sociedade escravista brasileira que nos deixou como legado uma história de exclusão e assimilação. Sociedade que não incorporou os negros libertos e cujo mercado de trabalho, substituiu em grande medida e sem parcimônia, a mão-de-obra escrava pelos imigrantes europeus, também explorados por uma elite branca predatória. A assimilação foi pensada pelas elites nacionais como “branqueamento” e desvalorização da cultura e identidade negras.

Hoje, 120 anos após o fim da escravidão, apesar da metade da população ser afro-descendente, ela não ocupa o mesmo espaço social na economia e na política brasileira. Embora uma cultura negra tenha resistido de forma heróica e quase silenciosa, a cultura nacional tentou encobrir as diferenças e esquecer o peso do passado. “Agora somos todos iguais” ou “Quem se esforçar pode chegar lá”. Estas falas ignoram as condições desiguais da população negra para disputar espaço de igual para igual com o restante da sociedade.

Como se fosse possível igualar um jogo de futebol onde os negros começam perdendo de 20 a 0 (zero) sem ter a mesma condição física e técnica do outro time, alijados que foram de direitos básicos tais como trabalho, saúde e educação.

Uma das faces mais perversas da globalização em sua origem foi a indiscriminada circulação de bens através do comércio ultramarino.

Vítimas da gana acumulativa das nações européias, milhões de negros foram arrancados de suas tribos e famílias na África, tidos como mais uma mercadoria, neste inescrupuloso comércio. A dominação de populações na África, na América e na Ásia foi fruto das disputas das nações do velho mundo por novos mercados e fontes de matérias primas. Com mais ou menos miscigenação, esses processos, no Brasil e no mundo, foram adotados da forma mais cruel que se possa imaginar, passando por extermínio, super-exploração, destruição da cultura e identidade, segregação e, essencialmente, exclusão.

Nesse sentido, Zumbi se junta a outros grandes ícones da luta pela liberdade, por justiça e igualdade. Negros e não-negros fazem parte desta história. Isso é importante, pois a história mostrou que a luta de um grupo étnico só é vitoriosa quando representa o respeito e valorização de todos os grupos tendo como foco central a dimensão humana comum a todos. No século passado, Marthin Luther King e Gandhi souberam fazer esta leitura e viveram para ecoar suas lutas em seus países e no resto do mundo.

Muito se avançou, mas ainda há muito por ser feito. Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis e as políticas afirmativas não resolveram todos os problemas de desigualdade e injustiça. No entanto, é inegável o efeito de tais políticas para a população negra nos últimos 40 anos. As oportunidades foram aproveitadas e hoje, uma grande oportunidade foi gerada pela eleição de Obama para curar tais feridas e buscar uma união “mais perfeita” entre os americanos, não só brancos e negros, mas também latinos asiáticos e de outras origens.

No Brasil, iniciamos há poucos anos um conjunto de políticas afirmativas voltadas para as populações de origem negra e indígenas. Outras políticas favorecem diretamente as populações mais pobres, trabalhadores e migrantes. Apesar de toda luta e sofrimento, esses segmentos, a grande maioria da população, tem hoje na figura do presidente Lula, um exemplo que veio de baixo, plenamente identificado com estas lutas.

Há, todavia, muita hipocrisia e resistência a tais políticas, notadamente expressa pela mídia conservadora e outros setores da sociedade. Outra conquista importante é as cotas nas universidades públicas. Outro espaço que as elites se apropriaram historicamente em seu próprio benefício, e resistem agora em dividir.

Ambas as políticas são muito positivas e alguns pequenos resultados já podem ser notados. No entanto, é necessário que tais políticas amadureçam e tenham um alcance mais amplo. Certamente, assim como na experiência americana, só poderemos avaliar melhor os resultados dessas políticas em algumas décadas.

Apesar destes avanços, no mercado de trabalho, a situação continua muito desfavorável aos negros. Segundo o DIEESE, os negros ganham 50 a 70% a menos que os demais trabalhadores. Embora a diferença de renda venha caindo nos últimos anos, ela só será zerada em 2029, se o ritmo de redução da desigualdade continuar o mesmo. Em relação aos cargos de chefia, segundo o Instituto Ethos, apenas 3,5% são ocupados por negros.

Os números nos bancos são ainda mais estarrecedores. Segundo o relatório social da federação dos bancos (Febraban) de 2007, os negros representam apenas 2,4% do quadro funcional em todo o país, enquanto os brancos são 84,1%. Desde 2001, quando o DIEESE publicou uma pesquisa “O rosto dos bancários”, o movimento sindical tem denunciado a discriminação nos locais de trabalho e nas contrataões. Em 2005, o Ministério Público do Trabalho ajuizou ação contra os cinco maiores bancos por discriminação coletiva. Como resultado desta luta, a Fenaban, em conjunto com a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf/CUT), está construindo o Mapa da Diversidade da categoria bancária para conhecer detalhadamente o perfil da categoria. Este mapa será fundamental para que o movimento sindical formule políticas claras de combate à discriminação e de inclusão, cobrando ações efetivas dos bancos.

Nos Estados Unidos, há outros Obamas que venceram a luta contra a discriminação. No Brasil, já avançamos um pouco, mais precisamos ir muito além para fazermos com que apareça a verdadeira face deste país tão diverso racial, cultural e religiosamente falando. Aí então, encontraremos muitos outros Obamas, de todas as raças e de todos os credos, advindos dos extratos mais baixos e desfavorecidos da sociedade brasileira.

*César Costa de Araújo é assessor do Sindicato dos bancários de Brasília

Fonte: Seeb Brasília

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