20080429_economicsA crise financeira mais recente que se instalou mundo afora vem de uma seqüência de crises menores onde podemos citar o caso da LMCT em 1998, NASDAQ em 2000, ENRON 2002 e, mais recentemente, as altas do mercado de commodities iniciadas em 2003 e que seguiram forte culminando com a crise atual do mercado sub-prime[1].

 

O forte crescimento dos ativos financeiros mundiais – depósitos bancários, títulos da dívida privada, títulos governamentais e participações acionárias cresceu, de U$$ 10 trilhões na década de 80 para algo em torno de, U$$167 trilhões em 2006.

 

Esse excesso de liquidez, muito criticado hoje em dia, foi em grande parte responsável por muito do investimento, como também, do crescimento mais recente da América Latina onde vários países tiveram como financiar seus processos de crescimento, dado que as taxas de juros estavam bem menores que no passado e,  inclusive,  foi o que facilitou nos livrar de parceiros indesejáveis como o FMI. E hoje com a crise financeira essa fonte de recursos secou.

 

Precisamos ter claro que este boom de excesso de liquidez internacional foi quem financiou nossa Balança de Transações Correntes e aqui vem um forte candidato a grave problema, como no curto prazo, estamos bem  mais ligados à economia mundial, ficaremos muito sujeitos a déficits na conta de Transações Correntes, tanto dado por remessas de lucros das multinacionais como também capitais especulativos aplicados em títulos do governo e ações em bolsa que são remunerados pela Taxa Selic[2] e facilmente são repatriados aos países de origem. Ou seja, a dependência anteriormente existente do FMI hoje se dá destes capitais produtivos e especulativos, muito embora as entradas de capitais externos ainda apontem no sentido de ingressos em valores bem significativos no Brasil.

 

O diagnostico da inflação mundial até então era dado por uma elevação do consumo de commodities[3] agrícolas (trigo, milho, carne, arroz), metálicas e de energia (aço, cobre, petróleo) além de um forte componente dado por especulação financeira no mercado de futuros destas referidas commodities, pois bem, com a diminuição da especulação neste mercado e a queda em valor destas commodities junto com a expectativa de redução da demanda agregada, a tendência é que a inflação brasileira caia ( IPCA e INPC ), caso o dólar não dispare sua paridade frente o real.

No tocante à taxa de juros, esta tem um forte efeito sobre setor produtivo, consumo e  dívida interna, o Brasil tem praticado as taxas de juros reais mais elevadas da terra. Com todo seu efeito perverso, estas taxas são mantidas assim tanto para conter demanda agregada como também manter a rentabilidade dos títulos do governo e atrair capitais para compensar a Balança de Transações Correntes.

O cenário futuro ainda está muito nebuloso, as informações ainda estão sendo divulgadas de forma muito homeopáticas de modo que ainda não dá para dizer que o pior já passou mas, certamente, o tamanho desta crise vai, em grande parte, ser dado pelo papel ativo ou passivo que as autoridades brasileiras terão frente ao problema. Se a postura for passiva, a crise vai adquirir maiores proporções. Caso seja mais ativa no sentido de manter aquecida a demanda agregada, esta crise pode até vir a ser uma boa oportunidade.

 

Reginaldo Aguiar

Ecominista e Supervisor Técnico do Escritório Regional DIEESE/CE

 


[1]   Sub-Prime – É um crédito à habitação de alto risco que se destina a uma fatia da população com rendimentos mais baixos e uma situação econômica mais instável. A única garantia exigida nestes empréstimos é o imóvel.

[2] A taxa Selic – é, no Brasil, a taxa de financiamento no mercado interbancário para operações de um dia, ou overnight, que possuem lastro em títulos públicos federais, títulos estes que são listados e negociados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia

[3]    Commodities  – Nas relações comerciais internacionais,  commodities designa um tipo particular de mercadoria em estado bruto ou produto primário de importância comercial.

 

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