São Paulo, 22 de Outubro de 2008 – Os ganhos líquidos dos quatro maiores bancos brasileiros poderão ultrapassar a cifra dos R$ 20 bilhões no acumulado deste ano até setembro, uma demonstração da robustez dessas instituições diante de uma crise financeira que vem derretendo a rentabilidade do sistema bancário mundo afora e levando à bancarrota empresas centenárias. Conforme estimativas da agência classificadora de risco Austin Rating, juntos Banco do Brasil (BB), Bradesco, Itaú Holding Financeira e Unibanco podem alcançar lucro líquido de R$ 20,62 bilhões entre janeiro e setembro deste ano, comparativamente aos R$ 18,72 bilhões obtidos em igual intervalo de 2007.

“Os resultados dos grandes bancos serão bastante positivos, não somente no acumulado de 2008 até setembro, mas ao longo de todo o ano”, diz Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating. As instituições começam a divulgar seus demonstrativos financeiros a partir da próxima segunda-feira, quando o Bradesco, tradicionalmente o primeiro, anuncia os seus números. Rodrigues, contudo, acredita que as instituições não deverão repetir a rentabilidade tão substanciosa em 2009 e que parte da indústria financeira, particularmente bancos de médio e pequeno portes, já começa a sofrer os efeitos da crise mais seriamente neste último trimestre, abalada pelo aperto da liquidez. Ele ressalta ainda que o acirramento da crise começou em meados de setembro, a duas semanas do fechamento do terceiro trimestre.

“Os fundamentos dos bancos menores são bons, mas a escassez de liquidez, com a fuga de depósitos e investidores, e a venda de ativos (carteiras de crédito, por exemplo) vão reduzir o crescimento projetado”, explica Rodrigues, observando que as companhias que estão negociando carteiras em busca de uma maior liquidez, além de ter reduzida a rentabilidade, já que repassarão os spreads às empresas compradoras, e poderão ter também reduzido o próprio tamanho de suas operações com essas transações.

Crédito

O desempenho dos bancos nos últimos anos vem sendo impulsionado principalmente pelo crescimento do crédito, mercado que já começa a desacelerar, cenário que deverá se agravar em 2009. A Austin revisou as expectativas de crescimento do estoque de crédito brasileiro, que ultrapassou a casa de R$ 1 trilhão em agosto, de 32% neste ano para 30%, em relação ao patamar do final de 2007. Também reduziu de 28% para entre 22% e 25% a estimativa de alta para o próximo ano. A retração só não será mais agressiva, afirma Rodrigues, porque a economia continua em crescimento, apesar da revisão de perspectivas também para 2009. O produto interno bruto (PIB) brasileiro crescerá 3,5%, ante os 4,5% anteriormente previstos. Neste ano, aumenta 5,2%, diz.Conforme as estimativas da Austin Rating, os lucros dos grandes bancos são significativos, apesar de não haver grandes saltos percentuais, com exceção do BB. A instituição pública deverá apresentar o maior ganho em termos percentuais no terceiro trimestre e no acumulado de 2008, impulsionado por efeitos extraordinários, como venda de participações em empresas, neste ano. No primeiro semestre, por exemplo, o lucro do banco já foi impactado fortemente pela venda de participação na Visa International. Para o período entre julho e setembro, a previsão da agência é que o BB tenha lucrado R$ 1,81 bilhão, um salto ante R$ 1,36 bilhão da mesma fase de 2007. Nos nove meses, o lucro líquido cresceu 51,04%, para R$ 5,8 bilhão até setembro último, indicam as projeções. Já o patrimônio líquido do BB sobe de R$ 23,06 bilhões para R$ 27,73 bilhões e a rentabilidade anualizada sobre o patrimônio líquido passa de 22,2% para 27,91%.

Os efeitos não recorrentes afetam também as comparações dos resultados do Itaú, mas neste caso os ganhos foram no ano passado, com a venda de participação na Redecard. Por isso, o lucro líquido do Itaú cai de R$ 2,42 bilhões no terceiro trimestre de 2007 para R$ 1,95 bilhão. No acumulado do ano, cai 6,37% e alcança R$ 6,03 bilhões. “Mas, operacionalmente, o resultado cresce”, analisa Rodrigues. No terceiro trimestre de 2007, os efeitos extraordinários do Itaú somaram mais de R$ 850 milhões. A Austin prevê que o patrimônio do Itaú passe de R$ 28 bilhões para R$ 31,8 bilhões neste ano e a rentabilidade anualizada, de 30,7% para 25,30%.

O resultado líquido do Bradesco deverá atingir R$ 6,05 bilhões entre janeiro e setembro, uma evolução de 4,13%, de acordo com as projeções da agência. No comparativo dos terceiros trimestres, o lucro cresce de R$ 1,81 bilhão em 2007 para R$ 1,95 bilhão este ano. O patrimônio líquido da maior instituição financeira privada do País encerrou setembro em R$ 35,17 bilhões, em relação aos R$ 29,21 bilhões de um ano antes. Já a rentabilidade anualizada sobre o patrimônio líquido saiu de 26,5% para 22,96%.

O Unibanco obterá lucro 3,82% maior no acumulado de 2008, atingindo R$ 2,72 bilhões. No trimestre, o ganho sobe de R$ 1,19 bilhão para R$ 1,23 bilhão. O patrimônio líquido alcançará R$ 13,6 bilhões, comparativamente aos R$ 11,59 bilhões de setembro de 2007, com rentabilidade saindo de 30,1% para 26,72%. Rodrigues avalia que a rentabilidade dos bancos privados, mesmo em queda e sob impacto dos efeitos extraordinários, permanece bastante expressiva.

Fonte: Gazeta Mercantil