Uma entidade que não busca se conectar no ciberespaço com seus associados está completamente fora de sintonia com o cenário comunicacional em que vivemos”. Essa é a opinião do professor da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, Sérgio Amadeu da Silveira – sociólogo, Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e autor de publicações como: “Exclusão Digital: a miséria na era da informação”. Em entrevista exclusiva ao Portal da CONTEE, ele fala sobre a criminalização dos movimentos sociais pela grande imprensa, o papel da comunicação digital e sua importância no movimento sindical e a falta de democracia advinda da proibição do uso de instrumentos da internet nas campanhas eleitorais de 2008.

Apesar dos graves problemas de inclusão digital existentes no Brasil, a internet pode ser considerada o meio de comunicação mais democrático da atualidade?

Sergio Amadeu: A penetração da Internet já supera a tiragem dos jornais diários no Brasil. Os tele-centros, as “lan-houses” e os programas de financiamento de computadores aliados a políticas municipais de abertura de sinais wireless (sem fio) gratuitos, certamente estão permitindo que a Internet avance em direção à maioria da população excluída. Do ponto de vista democrático, ela reduziu os custos de alguém se tornar um “falante” no espaço público. Além disso, a possibilidade de criar sites, blogs e comunidades de interesse garante uma maior diversidade de opiniões inexistente no mundo dominado pelos “mass media” (mídia de massa).

Qual a verdadeira penetração dos veículos de comunicação digitais alternativos na formação da opinião pública? Isso tende a aumentar?

Sergio Amadeu: No ciberespaço, expressão “veículo alternativo” tem menos sentido que no mundo analógico. Se você observar a soma da audiência de alguns blogs individuais, verá que ela já ultrapassa a visita em sites de grandes jornais tradicionais. Por isso, os grandes portais agregam os blogs ao lado de veículos tradicionais. O que está acontecendo é a mutação do conceito de notícia. Atualmente, a produção da notícia foi democratizada. Eu me informo sobre a campanha do Barack Obama diretamente no Twitter (rede social) dele. Se quero acompanhar o que esta acontecendo no mundo da tecnologia da informação, tenho que assinar um RSS (tecnologia que avisa o usuário sobre atualizações em uma página da internet) no Slashdot (site de notícias interativo). Quem é alternativo em cobertura da chamada TI (Tecnologia da Informação), o Slashdot ou a CNN? Os intermediários estão perdendo espaço no mundo das redes. 

A internet tornou-se o principal instrumento de exercício do contraditório?

Sergio Amadeu: Não tenho a menor dúvida. O que a imprensa tradicional tenta esconder a rede permite disseminar. A credibilidade da rede vem da reputação dos sites e blogs e pessoas. A economia das reputações na rede é muito mais eficiente e severa.

Os movimentos sociais e sindicais acusam a grande imprensa de criminalizar suas ações políticas. Você concorda com isso? A falta de uma boa estratégia de comunicação nas entidades pode contribuir com isso?

Sergio Amadeu: A criminalização da questão social é antiga no Brasil. Nos princípios do século XX, o então Presidente Washington Luis já dizia “questão social é caso de Polícia”. Revistas como a Veja são boletins de agremiações com interesses materiais concretos. Agem violentamente contra tudo que pode atrapalhar a reprodução do capital de seus arranjos econômicos, principalmente contra os movimentos sociais. Eu nunca vi a Veja atacar a Operadora de Telefonia no Brasil e o modelo de privatização do PSDB, em que o consumidor de banda larga paga por 1 Mega de conexão e só recebe 10% do contratado. (Para eles), isso não é crime. Acredito que a estratégia seja usar claramente os espaços democráticos do ciberespaço e organizar clusters, conjuntos de blogs e redes de informação que perpasse também pelas redes sociais. Não acredito em convencer o editor da Veja. Ele não pode ser convencido ele é a voz dos grupos que a revista defende.

Você considera importante uma entidade sindical ter uma página na internet? Por quê?

Sergio Amadeu: Uma entidade que não busca se conectar no ciberespaço com seus associados está completamente fora de sintonia com o cenário comunicacional em que vivemos. Recentemente, a alta corte do Reino Unido, a Câmara dos Lordes, abriu um canal de TV permanente no Youtube (www.youtube.com/ukparliament). Imagine que ainda tem dirigente sindical com medo de abrir um blog e ter que responder as críticas da base. Pode esquecer. A comunicação caminha para uma fase participativa. É óbvio que a participação será assimétrica, que uns participam mais do que outros, mas todos caminham para superar a passividade comunicativa. A rede viabiliza isto.

Especialmente em função das eleições deste ano temos acompanhado diversas tentativas de “censura” ou “regulamentação” (dependendo do interlocutor) em relação ao conteúdo publicado na internet. Quais os riscos e conseqüências destas intervenções? De quem deve ser o papel de supervisionar abusos e ilegalidades na rede?

Sergio Amadeu: Os abusos na rede são repelidos pela própria rede. Precisamos construir uma cidadania no cenário digital e ela pode requerer uma série de regulamentos que se tornem leis nacionais. Mas a rede é transnacional e descentralizada. Ela requer mais governança que governo, mais participação da sociedade civil do que ação burocrática. No caso das eleições, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) errou ao querer impedir o uso das redes sociais, do Orkut, do Youtube, Twitter, Facebook, listas de discussão etc., na campanha eleitoral. Tal proibição beneficia o poder econômico, pois retira todas as vantagens equalizadoras da rede. Além de ser de difícil aplicação, serve, portanto, aos usos arbitrários e acaba protegendo os candidatos que temem a interatividade mais do que tudo. As redes digitais exigem interação, elas têm horror ao palanque e à proteção do demagogo.

Fonte: http://www.contee.org.br/noticias/msin/nmsin374.asp

Postado por Erismar Carvalho, às 14h11.