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Veja adota tática do avestruz no caso Policarpo

MONTAGEM 247

247 – Na próxima terça-feira, o deputado Doutor Rosinha (PT-PR) apresentará o pedido para convocação do jornalista Policarpo Júnior, chefe da revista Veja em Brasília, pela CPI da Operação Monte Carlo. Durante anos, o bicheiro Carlos Cachoeira, useiro e vezeiro de grampos clandestinos e ilegais, foi a principal fonte de Policarpo. O argumento pela convocação de Policarpo foi reforçado pela capa da revista Carta Capital deste fim de semana, que traz um grampo em que Policarpo pede a Cachoeira que levante algumas ligações de um deputado: o goiano Jovair Arantes, do PTB. O bicheiro promete resolver o assunto com o araponga Idalberto Matias, o Dadá, especializado em arapongagem clandestina.

Há, no entanto, um pacto de silêncio na imprensa brasileira. Nenhum veículo que integra a chamada “grande mídia” – ou o chamado “Partido da Imprensa Golpista”, como alegam seus críticos – repercute notícias da revista Carta Capital. Foi assim, por exemplo, na lista recente sobre o mensalão mineiro e o mesmo ocorre no caso Policarpo. Alguns jornais, como a Folha de S. Paulo, por exemplo, já decretaram que há apenas uma relação “fonte-jornalista” no envolvimento Policarpo-Cachoeira.

No resto do mundo, no entanto, escândalos que atingem a mídia são cobertos por todos os veículos – a começar por aqueles que são atingidos pelas denúncias. Nesta semana, por exemplo, a revista Time e a televisão CNN decidiram suspender o colunista Fareed Zakaria, um dos mais consagrados comentaristas norte-americanos, porque ele está envolvido num caso de plágio. Na Inglaterra, a ex-toda-poderosa Rebekah Brooks, que comandava o império de tabloides de Rupert Murdoch, terminou no banco dos réus porque estava envolvida, também, num escândalo de grampos ilegais contra celebridades. Murdoch pediu desculpas e fechou um jornal.

Tática do avestruz

No Brasil, o jogo é muito diferente. Embora o caso Policarpo-Cachoeira tenha se espalhado como pólvora na internet e nas redes sociais, a revista finge que não é com ela. Falou uma vez, no início da crise, citando um trecho parcial de um grampo, em que Cachoeira dizia que “Policarpo nunca vai ser nosso”, e na semana retrasada, quando Andressa Mendonça, esposa do bicheiro, chantageou um juiz, ameaçando soltar, pelas mãos de Policarpo, um dossiê negativo contra ele, em Veja.

Nesta semana, seria natural que Veja voltasse a falar sobre o caso. Afinal, não é normal que um jornalista peça a um bicheiro que levante ligações de um deputado democraticamente eleito. O crime não pode ser colocado a serviço da agenda política de uma revista. Por mais que isso pareça óbvio, Veja decidiu se calar. E a Editora Abril, comandada pelo executivo Fábio Barbosa, antes um porta-voz da transparência corporativa, cada vez mais adota a estratégia do avestruz, enfiando a cabeça debaixo da terra.

Mais do que simplesmente não se posicionar, há também um intenso jogo de pressões. Barbosa, no início do CPI, foi a Brasília e falou com líderes de vários partidos, para que nem Policarpo nem Roberto Civita fossem convocados. O vice-presidente, Michel Temer, foi também procurado por João Roberto Marinho, das Organizações Globo, que apresentou a mesma demanda: imprensa na CPI, jamais!

Quem ganha com isso? A internet, que se consolida como terreno da liberdade, onde todos os assuntos podem ser tratados sem nenhum tipo de censura.

Neste fim de semana, Veja não fala sobre o caso Policarpo-Cachoeira. Mas declara seu apoio à presidente Dilma Rousseff. A capa, que trata de um suposto “choque de capitalismo” promovido pelo governo, aborda o plano de concessões que será divulgado na quarta-feira. “Está aí uma batalha para a qual a presidente vai precisar do apoio da opinião pública. O de Veja fica desde já aqui hipotecado”, escreve Eurípedes Alcântara, em sua Carta ao Leitor.

No momento em que sua imagem é abalada por um escândalo, Veja “dilmou”.

(Brasil 247)

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