Suicídio de aposentado desesperado com a crise econômica comove a Grécia

Manifestantes deixaram mensagens no local (AFP, Louisa Gouliamaki)

Aris Messinis

O farmacêutico aposentado que comoveu a Grécia ao cometer suicídio com um tiro na praça mais movimentada de Atenas, em protesto pela crise econômica do país, deixou um bilhete de despedida no qual lamenta a pobreza e a falta de esperança que vive seu país.

O idoso de 77 anos, que se matou sob uma árvore na Praça Syntagma na manhã de quarta-feira, a apenas 100 metros do Parlamento, afirma, em seu bilhete, que a austeridade do governo acabou com sua pensão e o deixou na mais completa penúria.

Ele também comparou o governo, que está implementando medidas econômicas impopulares em troca de empréstimos da UE-FMI, ao regime imposto pelas forças nazistas de ocupação em 1941.

“O governo de ocupação… literalmente dizimou minha habilidade de sobreviver, baseada em uma pensão respeitável pela qual eu paguei por 35 anos”, afirma um trecho da carta divulgada pela imprensa.

“Eu não encontro outra solução para um fim digno antes de começar a revirar o lixo para me alimentar”, completou no bilhete, que teria sido escrito com tinta vermelha.

Uma fonte policial afirmou que o idoso tinha câncer.

Dezenas de milhares de gregos perderam os empregos no último ano. A taxa de desemprego atinge quase 25% da força de trabalho do país.

As autoridades aplicam um rígido plano econômico desde 2010, quando a Grécia foi obrigada a recorrer à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional por empréstimos de resgate, depois que os juros dos empréstimos atingiram o teto.

Para assegurar os empréstimos, a Grécia foi obrigada a cortar de maneira drástica os gastos estatais e reduziu os salários de funcionários civis e pensionistas em mais de 40%.

A Praça Syntagma é cenário há dois anos de protestos contra as medidas de austeridade, que pretendem retirar a Grécia da crise fiscal.

Mais de mil pessoas compareceram ao local na tarde de quarta-feira, convocadas por mensagens nas redes sociais.

Elas depositaram flores, velas e mensagens na árvore em que o idoso cometeu suicídio. Algumas cartas deixadas no local convocavam uma “revolta do povo”.

Um grupo de 50 jovens entrou em conflito com a polícia. Os manifestantes jogaram pedras nos agentes, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo durante uma tentativa de invasão a um hotel de luxo.

Pelo menos dois jornalistas foram algemados na confusão, apesar das tentativas de identificação.

“Eu me identifiquei como um jornalista, mas a polícia antidistúrbios me algemou assim mesmo”, afirmou o repórter George Gerafentis, do canal estatal NET.

A emissora exibiu imagens de uma jornalista sendo empurrada para o chão e a tentativa de agressão contra a repórter de um policial.

Uma investigação foi iniciada sobre o incidente.

Dez pessoas foram detidas e liberadas mais tarde.

A Grécia tem uma taxa de suicídios abaixo da média da UE, mas os casos aumentaram após dois anos de severa austeridade.

O jornal Ta Nea informou que mais de 450 pessoas cometeram suicídio no país em 2011 e outras 600 fizeram tentativas frustradas, mas não atribuiu todos os casos à crise econômica.

A morte do aposentado aconteceu um mês antes das eleições parlamentares.

“Estou em choque. Infelizmente não é a primeira vítima. Nós precisamos resgatar os gregos de sua desesperança”, afirmou Antonis Samaras, líder do Nova Democracia, o partido que lidera as pesquisas.

(AFP)

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