Laíla: Carnavalesco da Beija-Flor, dono de 18 títulos, lembra quando foi taxado de louco

Laíla, diretor de harmonia e Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis, vai completar 69 anos de idade e 54 de Carnaval e acompanhou de perto toda a evolução dos desfiles das escolas de samba. Hoje, é o carnavalesco que coleciona o maior número de títulos no Rio: sete campeonatos no Salgueiro, entre 1960 a 1975, e mais onze na Beija-Flor. Já foi pedreiro, corretor e produtor musical, mas o seu fascínio nunca deixou de ser a escola de samba. A parceria entre ele e Joãosinho Trinta, desde o Salgueiro até os anos 80 na Beija-Flor, foi responsável por mudar a estética e os rumos do Carnaval carioca com a introdução de enredos criativos e por dar grandiosidade aos desfiles.

Laíla recebeu o UOL no barracão da escola e contou, entre outras lembranças, que o acharam “maluco” por tirar as pessoas do chão e botar em carros alegóricos, isso em 1975, quando o Salgueiro inseriu carros grandes nos desfiles. O carnavalesco se define como alguém que veio ao mundo “com a missão de ser sambista”. Conhecido como uma pessoa durona, é o mais experiente da atual comissão de Carnaval da agremiação de Nilópolis, composta por mais quatro jovens – André Cezari, Fran-Sérgio, Ubiratan Silva e Vítor Santos. Juntos, os cinco assinam o enredo “São Luís – O poema encantado do Maranhão”, tema da escola em 2012. “Eu só dou bronca e puxo a orelha na hora certa”, admite. “Ele é um grande pai, fazer parte da equipe e trabalhar com Laíla é mais que um sonho, é fantástico”, diz André Cezari, um de seus pupilos. Leia a seguir a entrevista com Laíla:

UOL – Você pegou toda a evolução dos desfiles das escolas de samba antes mesmo do Sambódromo, ainda quando era ainda na Av Rio Branco. A sua história se mistura com o Carnaval?

Laíla – Peguei toda a trajetória, a Av. Rio Branco em 1960, depois foi para a Av. Presidente Vargas, Praça Onze, Av. Antônio Carlos, em 1974 e 75, voltou para a Praça Onze e depois foi para o Sambódromo. Nunca fui um cara de gostar de pular carnaval na rua ou em bloco. Eu tinha uma meta, a escola de samba me fascinava, tinha um fascínio pelas coisas que via. Fiquei apaixonado pelas sociedades (carnavalescas) e foi em 1975 que a gente inseriu no Salgueiro o tamanho dos carros. Trouxemos carros grandes e botamos as pessoas em cima dos carros. Todo mundo dizia que a gente estava maluco de tirar as pessoas do chão e botar no carro.

UOL – Você é o diretor de Carnaval que tem mais títulos? São quantos no total?
Laíla – No momento sim, só não participei de um título da Beija-Flor de 1983. Peguei todos os títulos do Salgueiro de 1960, 63, 65, 69, 71, 74 e 1975. Mais onze da Beija-Flor. Ganhei um ano na Unidos da Tijuca, pelo Grupo de Acesso, com Belmiro Gouveia e com o Renato Lage. E na Grande Rio, com Lucas Pinto.

Eduardo Knapp/Folha Imagem
Quem fechou o primeiro contato com Nilópolis foi ele. Joãosinho e eu éramos bem jovens. A Beija-Flor não tinha expressão nenhuma. Foi um romance profissional.

Sobre a parceria com Joãosinho Trinta

 

UOL – Olhando para trás, o que você guarda de boas memórias de Carnaval?
Laíla – São memórias de época, o que nós fazíamos era maravilhoso. Hoje se continuássemos o caminho de quando éramos jovens, o Carnaval não teria esse crescimento. As coisas mudaram muito, os tamanhos mudaram, o andamento de samba mudou, o ritmo de bateria mudou e as fantasias mudaram. A grande realidade é que o desfile de escola de samba passou a ser espetáculo. Foi com Joãosinho Trinta, ainda na época do Salgueiro. O espetáculo começou quando houve uma mudança dos enredos. Até 1960, as pessoas falavam de Duque de Caxias e Tiradentes e ninguém tinha se atrevido a falar, por exemplo, de uma história africana. O Salgueiro veio com ‘Quilombo dos Palmares’ (1960). Mudou a história do Carnaval, logo em seguida fez a ‘Chica da Silva’ (1963).

UOL – Conta um pouco da sua história no Carnaval carioca?
Laíla – Eu sou oriundo do Salgueiro, nasci e me criei no morro do Salgueiro. O João chegou no Salgueiro com Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Rosa Magalhães, e eu já era Salgueiro. Já tinha uma vocação. Nos anos 50, fiz uma escola de samba mirim no morro e foi sucesso. Tinha 10 anos de idade e já tinha esse interesse pelo Carnaval e a maneira de conduzir a escola mirim chamou a atenção dos adultos. Quando estava com 13 anos, passei a pertencer à ala de compositores do Salgueiro. Eu compunha, era metido a ser cantor. Fui o primeiro ‘peão’ numa escola de samba. Peão era a pessoa que percorria a escola toda levando e trazendo o samba para não atravessar. Por ser o mais jovem e já ter dado a aparência que era capaz, todo o desfile eu percorria da cabeça ao final da escola. Eu que fazia todo o trabalho de puxar a escola, ir e tirar a bateria.

UOL – Quem foram seus mentores?
Laíla – Não tive apoio, quem me deu uma luz de percorrer a Avenida foi o estilo do Fernando Pamplona. Peguei esse caminho e comecei a fazer harmonia nesse estilo com muito mais dinamismo.

UOL – Como foi a sua saída do Salgueiro e a entrada na Beija-Flor? Conta um pouco da sua relação com Joãosinho Trinta…
Laíla – Saímos juntos, em 1975, eu e Joãosinho, no ano de ‘O Segredo das Minas do Rei Salomão’. Eu resolvi largar. Quem fechou o primeiro contato com Nilópolis foi ele. Joãosinho e eu éramos bem jovens. A Beija-Flor não tinha expressão nenhuma. Foi um romance profissional, tudo que a gente pensava era de comum acordo, todas as decisões. Ele inventava muito e a gente sempre se deu muito bem. Na escolha dos sambas, eu sempre estive perto. Trabalhei de 1960 a 1975 no Salgueiro com o João e até 1980 na Beija-Flor com ele.

UOL – Como você avalia todos esse anos no Carnaval? Muitos momentos gloriosos e também de algumas tristezas?
Laíla – Tristeza a gente sempre tem, nem todo mundo vence tudo. A minha maior vitória é saber fazer, trabalhar sério e ter aprendido com pessoas mais velhas que eu. E hoje eu posso dar ensinamento daquilo que já tinha na veia. Papai do céu já me botou no mundo com a missão de ser sambista. Busquei aprender tudo e hoje sou um dos mais renomados dentro da história.

Julio Cesar Guimaraes/UOL
O Carnaval não me deu um pé de meia, mas me dá condições de sobreviver. Vivo do que eu faço, trabalho o ano inteiro desde o início do enredo

Sobre não ter ganho muito dinheiro com a folia

UOL – Uma lembrança sua no meio da Avenida…
Laíla – Um dos grandes momentos meus no Salgueiro foi em 1969, a escola estava sob o meu comando, ‘Bahia de Todos os Deuses’. Enfrentei uma pressão muito grande, eu queria o samba que ganhou e a metade da escola não queria. E foi um sucesso nacional, no meio da ditadura militar. Na época do Salgueiro, todos os Carnavais foram com dificuldade, não se tinha dinheiro, nós fazíamos vaquinha entre a gente para comprar as coisas. Em 1974, eu e o João, que era funcionário do Theatro Municipal, tirávamos do nosso dinheiro para fazer Carnaval. Eu não vivia do Carnaval, só de 1998 para cá. Trabalhei com música, já vendi casas e fui pedreiro quando tinha meus 19 anos.

UOL – Você é conhecido como uma pessoa durona?
Laíla – Eu sempre fui democrático dentro da escola de samba. As pessoas me tem como um cara durão, eu sou durão na maneira de direcionar e dirigir. Quero as coisas corretas, busco cumprir horário, se um desenho está errado. Eu só dou bronca e puxo a orelha na hora certa, elogio também.

UOL – Você carrega muitas guias e amuletos no pescoço, segue alguma religião?
Laíla – Eu sou religioso, sou umbandista, tenho Xangô, caboclos, preto velho, Exu. Está tudo junto para tentar segurar um pouco as cargas. Uso as guias todos os dias, só tiro para dormir e tomar banho. Ogum é o orixá específico da escola.

UOL – Carnaval é para você até quando?
Laíla – Faço 69 anos de idade em maio e 54 anos de Carnaval. Espero chegar aos 90 e mais um pouquinho. O Carnaval não me deu um pé de meia, mas me dá condições de sobreviver. Vivo do que eu faço, trabalho o ano inteiro desde o início do enredo.

UOL – Os desfiles vão mudar após a reforma do Sambódromo?
Laíla – Havia um problema muito sério no Sambódromo, o lado direito dos camarotes tinha um paredão. O som de bateria entrava e voltava com retardo. Tinha que estar muito atento e o canto atrasava pela distância. Acredito que agora melhore, não vai ter esse paredão rebatendo o som, os camarotes vão estar mais distantes. Acho que todo mundo tem como desejo ganhar por ser o novo Sambódromo com outra maquiagem.

 (CARNAVAL 2012 – PORTAL UOL)
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Uma opinião sobre “Laíla: Carnavalesco da Beija-Flor, dono de 18 títulos, lembra quando foi taxado de louco”

  1. sou roterista e um grande obisevador o que vejo no laila e uma coisa que deixa a certeza que eu ja tinha para linda com o seres humanos vc tem duas escolhas ou vc agem como ele ou nacer com o dor de pcicologos de repassar acada um o que aquilo representa na vida de quem tar dirijido como nem todos nao nacer com esse dor fassa como o laila.

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