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João Gilberto: Aos 80 anos, pai da bossa não tem amigos e vive isolado no Rio

Você mora no Leblon! Olha a baixaria!”, grita João Gilberto, o compositor que completa 80 anos nesta sexta-feira (10). Sim, o pai da bossa nova, conhecido pelo canto sussurrante acompanhado de banquinho e violão, grita. Do lado de fora do apartamento, o vizinho esmurra a porta e responde: “Você também mora no Leblon e fumar maconha é crime! Então apaga essa merda dessa maconha”. A frase talvez tenha sido a única que alguns poucos vizinhos ouviram diretamente do músico, que vive há mais de uma década no oitavo andar de um prédio na rua Carlos Góes, na zona sul do Rio. O apartamento alugado, de 130 m2, é um original quatro quartos transformado em três e conta ainda com sala, cozinha, dependências e três banheiros, com direito a uma vaga na garagem. São quatro imóveis por andar.

Discreto, João quase nunca sai de casa e raramente é visto nas dependências do edifício, segundo relatos de moradores e funcionários. Para alguém que preserva tanto sua intimidade, o registro de uma manifestação pública – e ainda por cima dirigida a um “estranho” – é uma nota dissonante.

“Deve ter um mês mais ou menos que um morador foi até lá e bateu tanto que quase pôs a porta abaixo! O problema é a maconha. Parece que ele fuma e o cheiro entra pela janela da casa do rapaz. Aí os dois ficaram se xingando”, contou ao iG uma vizinha que preferiu não se identificar na última sexta-feira (3). O vizinho ameaçou chamar a polícia. Ao porteiro do prédio, João afirmou, através do interfone, que em sua casa faz o que quiser. E questionou: “E isso (fumar maconha) é crime?”. O porteiro preferiu não tomar partido e apenas comunicou a ameaça de que o vizinho iria telefonar para a polícia. Desde então, nunca mais nenhum morador afirmou ter sentido qualquer “cheiro estranho”.

Conhecido pelas excentricidades, João Gilberto não tem empregada e até alguns meses mantinha um funcionário que ficava na portaria aguardando algum pedido do patrão. O rapaz teria arrumado outro emprego e, desde então, o compositor não o substituiu. “Ele ficava horas na portaria. A gente morria de pena. Meu marido passava e perguntava: ‘Ele ainda não te deixou entrar hoje?’”, lembra outra vizinha.

Pouco se sabe sobre o estado do apartamento do cantor. “Nunca vimos ninguém fazendo obras de melhoria e, há algum tempo, pedreiros precisaram entrar lá porque o vaso dele transbordou. Comentaram que o banheiro estava um horror com bolhas no teto e mal conservado”.

Um entregador do supermercado Zona Sul da rua Carlos Gois endossa. “Tem uns 20 dias que entreguei um pacote com garrafas de água mineral, Coca-Cola e algumas sacolas. Ele abriu a porta e deixei tudo na cozinha, mas fiquei impressionado. Nunca tinha visto uma cozinha tão suja no Leblon! Tinha uma pilha de pratos, copos e embalagens descartáveis em cima da mesa”, lembra o funcionário.

João não tem mais carro. Nem mesmo o Monza grafite 1987 pelo qual tinha paixão. Ou, pelo menos, não o guarda no prédio. Segundo funcionários que fazem a segurança, quando sai de casa, sempre à noite, ele usa táxi, e pega o carro na garagem.

Curiosamente, no apartamento onde João vive, as contas não estão no nome do cantor e sim no de uma ex-secretária. Ele paga o condomínio no valor de R$ 1,3 mil, impreterivelmente, de três em três meses, acrescido da multa.

As únicas pessoas que mantêm uma relação de proximidade física com o cantor e compositor – e falam sobre o assunto sem melindres – são os funcionários do restaurante Degrau, a duas quadras da casa do músico. “Seu João é muito bacana. Sempre liga perguntando se tem jogo do Vasco e que horas é para poder assistir a partida”, conta Sebastião Alves, gerente do restaurante, que trabalha no local há 37 anos.

João pede almoço regularmente e, às vezes, jantar. Gosta de linguado, carne e refrigerante. Não raro, pede apenas o prato do dia como todos os fregueses. Chama os entregadores pelo nome e, sempre, de forma carinhosa, no diminutivo. “É Tiãozinho, Betinho…”. As gorjetas variam entre R$ 10 e R$ 20. Pede, às vezes, para que abram uma garrafa de vinho.

João varia o cardápio do Degrau com pratos dos restaurantes Garcia & Rodrigues, Antiquarius e a Pizza Al Taglio, todos no Leblon. Costuma alugar DVDs na locadora Vídeo Nacional que fica no térreo do prédio onde mora. Até hoje somente catorze filmes foram retirados por ele e já há alguns meses o cantor não aluga nenhum.

Além da visita de seu empresário Otávio Terceiro e de alguns músicos, quando ensaia para um show, João recebe apenas a filha, Bebel Gilberto, do casamento com Miúcha, e a atual namorada, a produtora Cláudia Faissol, com quem tem uma filha, Luisa, de 6 anos. A ex-namorada Maria do Céu nunca foi vista por lá. Cláudia, no entanto, costuma visitá-lo às quintas e sextas e conseguiu a proeza de gravar imagens do cantor, dentro de sua casa, para um documentário. O filme, porém, corre o risco de nunca ser lançado já que, segundo ela, parte das imagens podem se perder caso não recebam o armazenamento adequado. Ela alega ter procurado o Ministério da Cultura no Governo anterior, mas na gestão de Ana de Hollanda, não teria mais obtido retorno.

Apesar do feito inédito, nem tudo sempre são flores na relação entre Cláudia e João Gilberto. Vizinhos afirmam já a terem visto aos prantos na escada do prédio onde o músico reside. A jornalista Glória Maria foi vista na portaria tentando falar com o músico por duas vezes. “Ele mandou dizer que gosta muito dela, mas que não iria abrir a porta”, conta um funcionário. Caetano Veloso também já tomou um chá de cadeira do músico há cerca de três anos.

O apartamento de João Gilberto tem vista para a frente da rua e para a lateral, o que permite ao baiano ver o mar. As cortinas sempre fechadas e com blecaute denunciam sua preocupação em preservar a privacidade. Segundo relatos de vizinhos, às vezes ele vai até a área de serviço, onde existe um tanque de lavar roupa, e admira a vista usando short, camisa social e um relógio de pulseira preta.

Ouvir a música do cantor é um privilégio só de quem mora no mesmo andar. Dizem que é possível escutar o violão de João à noite, especialmente às vésperas de alguma apresentação. O único relato de terem visto João Gilberto na rua, à luz do dia, é de uma senhora que trabalha em uma ótica próxima. “Ele veio há muitos anos, uns oito talvez, apertar os óculos. E nunca mais”, lembra ela.

Quem quiser ter o mesmo privilégio dos vizinhos de porta do cantor e compositor terá duas oportunidades ainda este ano. A partir de julho começam a ser vendidos ingressos para um show no dia 3 de setembro, no HSBC Brasil, em São Paulo, e outro no dia 10 do mesmo mês, no Vivo Rio, no Rio de Janeiro.

Nesta sexta-feira (10), quando o baiano completar 80 anos, a comemoração será discreta, no seu próprio apartamento, nada mais do que um bolinho com a presença da namorada Cláudia Faissol e da filha Luísa. O restaurante Degrau prepara uma surpresa para a hora do almoço. Segundo a gerência, vão aguardar o pedido do cantor para incrementá-lo com alguns mimos extras. Ele não será cobrado desta vez.

(Ultimo Segundo)

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