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Saúde e Comportamento, Sociedade

Origens: Facções criminosas do Rio tiveram origem nos presídios

A tomada da Vila Cruzeiro e depois do Complexo do Alemão pelas forças policiais no Rio de Janeiro é a maior vitória do Estado contra o tráfico de drogas na história do País. Mesmo assim, não é o suficiente para que agentes falem abertamente sobre um assunto delicado. O eficiente esquema de organização do comércio de drogas em facções criminosas é um assunto praticamente proibido. O argumento é que falar sobre as organizações criminosas é uma forma de divulgação e, também, de reconhecer a força desses grupos.

O comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Mário Sérgio Duarte, afirmou na terça-feira que o momento é de desmitificar o poder das forças criminosas e reconhecer que estão apenas “em busca do lucro”. No entanto, saber suas origens e a forma como operam é compreender como ocuparam lacunas deixadas pelo Estado brasileiro. A origem de todas foi o sistema prisional. Para conseguir explicar quem são e como agem os maiores grupos organizados do Rio de Janeiro, o Terra teve a ajuda de dois altos oficiais da Polícia Militar, que exigiram o anonimato para chamar as facções pelo nome.

Comando Vermelho (C.V)
É a primeira e maior organização criminosa a dominar territórios de comunidades carentes e o pilar que originou todas as outras através de dissidências. Seu surgimento remonta ao regime militar, nos anos 1970, quando detentos comuns que assaltaram bancos foram mantidos juntos com presos políticos no presídio de Ilha Grande. “A justificativa era que ambos haviam infrigido a lei de segurança nacional e foram, assim, mantidos em uma ala para punir tal crime”, disse um coronel da PM.

O C.V. nasceu com o nome de Falange Vermelha, uma mescla de ideologia de esquerda com o objetivo de se capitalizar através do crime. Da mesma forma como hoje, quando as ordens para ações criminosas partem de presídios, antigos presos políticos elaboravam planos que eram executados por criminosos comuns fora dos presídios. Com a consolidação das favelas, nos anos 1980, criminosos ligados ao grupo da Ilha Grande viram no tráfico de cocaína a chance de um lucro fácil e mais rápido que os assaltos. Era o fim da Falange e o início do Comando.

A favela em explosão demográfica foi o ambiente ideal para a proliferação da facção. A primeira metralhadora apreendida no Rio foi no morro da Mineira, em 1984. Até o final dos anos 1980, o crescimento do negócio do tráfico originou conflitos de interesses que acabaram causando o primeiro racha no Comando Vermelho: o Terceiro Comando. “Elas se odeiam porque todas as facções criminosas tiveram como origem dissidências entre elas”, disse um oficial da PM.

Segundo os policiais, a principal característica do C.V é seu apetite por territórios, o que motivou violentas guerras com os inimigos e a polícia. Entre as favelas conquistadas pelo C.V. estão o seu antigo quartel-general, que ficava no Complexo do Alemão e já foi disputada com o Terceiro Comando e com a Amigos dos Amigos nos anos 1990, além da Vila Cruzeiro (ambas, agora, ocupadas pela polícia) e de Manguinhos, entre outras favelas. Nestes locais, a droga vendida trazia estampadas na embalagem as iniciais da organização e de alguns de seus líderes. Entre seus valores, a assistência à família de chefes presos – no que se assemelha à máfia italiana e à organização criminosa paulista “Primeiro Comando da Capital (PCC)”, que também promoveu uma série de ataques organizados em 2006.

Entre as mais famosas lideranças do C.V. presas, os traficantes Fernandinho Beira-Mar e Elias Maluco. O traficante Escadinha foi resgatado do presídio de Ilha Grande de helicóptero em 1986, numa das mais espetaculares fugas da história do Brasil. O Comando sofreu seu mais duro golpe desde a fundação com as tomadas das favelas do Complexo do Alemão e de Vila Cruzeiro na semana passada. O prejuízo financeiro com as apreensões foi estimado em R$100 milhões pela Polícia Militar. “Sem o seu maior território, com menos armas, drogas e dinheiro, o C.V já é quase um bando comum”, disse um oficial da PM. Com exceção do Morro dos Macacos, todas as 12 Unidades de Polícia Pacificadora foram instaladas em áreas onde antes havia o domínio do Comando.

Terceiro Comando
Diferente da dissidência mais recente, o Terceiro Comando Puro, a facção chamada apenas de “Terceiro Comando” prosperou como uma alternativa ao domínio do Comando Vermelho em meados da década de 1990. Sua fundação é obscura, ao contrário da rival. Pode ter sido originada de uma organização criminosa chamada “Comando Jacaré”, que teve uma importância discreta como rival do C.V. na década de 1980.

O TC chegou a ser aliado da facção “Amigos dos Amigos” (ADA), mas após uma violenta rebelião no presídio de Bangu I em setembro de 2002 a aliança terminou. Alguns dos principais líderes foram executados a mando de Beira-Mar do CV, entre eles Ernaldo Pinto Medeiros, vulgo Uê. Celsinho da Vila Vintém, da ADA, foi apontado como o traidor do grupo. Membros da organização migraram para a ADA ou fundaram o Terceiro Comando Puro. As divisões enfraqueceram o grupo, que tinha como uma das favelas mais importantes ocupadas a Parada de Lucas, quase no limite da capital com a Baixada Fluminense.

Amigos dos Amigos
Tem como maiores trunfos atuais o domínio da Rocinha, “governada” discretamente pelo traficante Nem, e o Vidigal, também na zona sul. Foi fundado por Paulo Cesar Silva dos Santos, o Linho, que se juntou a Uê, criador do Terceiro Comando, que havia sido, por sua vez, expulso do C.V.

“O principal valor da ADA é a visão do tráfico como negócio e a tomada de decisões pelo confronto apenas no caso de interferências nos negócios ou tentativas de tomada do território”, disse um oficial da PM. Líderes da ADA preferem a discrição, em lugar o abuso que caracterizaria traficantes do C.V.

Mas há exceções neste comportamento, motivadas por desejo de expansão dos negócios. A ADA chegou a conquistar o Complexo do Alemão do rival C.V em meados da década de 1990, mas depois perdeu o território. Em 2007, tomou o morro da Mineira. Para marcar a importante vitória, barracos foram pintados na cor verde. Foram membros desta facção criminosa que abateram um helicóptero no Morro dos Macacos, no ano de 2009, gerando um dos maiores conflitos recentes entre traficantes e a polícia no Rio. A UPP instalada nesta terça no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, ocupa um território antes dominado pela ADA.

Terceiro Comando Puro
É formado por remanescentes do Terceiro Comando, que faliu em 2002. Sua importância é pequena, segundo policiais, e não há nada que caracterize de forma marcante sua atuação no tráfico. Controla a favela de Parada de Lucas, entre outras menores.

Violência

 
Os ataques tiveram início na tarde de domingo, dia 21, quando seis homens armados com fuzis incendiaram três veículos por volta das 13h na Linha Vermelha. Enquanto fugia, o grupo atacou um carro oficial do Comando da Aeronáutica (Comaer). Na terça-feira, todo efetivo policial do Rio foi colocado nas ruas para combater os ataques e foi pedido o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para fiscalizar as estradas. Ao longo da semana, Marinha, Exército e Polícia Federal se juntaram às forças de segurança no combate à onda de violência que resultou em mais de 180 veículos incendiados.

Na quinta-feira, 200 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) tomaram a vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Alguns traficantes fugiram para o Complexo do Alemão, que foi cercado no sábado. Na manhã de domingo, as forças efetuaram a ocupação do Complexo do Alemão, praticamente sem resistência dos criminosos, segundo a Polícia Militar. Entre os presos, Zeu, um dos líderes do tráfico, condenado pela morte do jornalista Tim Lopes em 2002.

Desde o início dos ataques, pelo menos 39 pessoas morreram em confrontos no Rio de Janeiro e 181 veículos foram incendiados.

(Portal Terra)

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