Didático e popular, filme “Chico Xavier” dá início à febre espírita no Brasil

PAULÍNIA – Depois do sucesso improvável do filme “Bezerra de Menezes”, há dois anos, os produtores do País despertaram para um mundo novo, o fascinante (e rentável) mercado espírita. Os resultados dessa febre que chega com tudo em 2010 estão agora começando a desembocar nos cinemas e televisão. Talvez o mais importante deles, a cinebiografia “Chico Xavier” entra em cartaz na sexta-feira, 02 de abril, quando se comemora o centenário do médium, e já se pode afirmar com relativa certeza: deve ser fácil o maior fenômeno brasileiro de bilheteria do ano.

O longa-metragem foi exibido na noite de ontem no suntuoso Theatro Municipal de Paulínia, município do interior de São Paulo dono de um orçamento polpudo e, por isso, parceiro de ao menos 20 projetos por ano na área cinematográfica. O evento serviu para os políticos locais colocarem seu discurso num local nobre, mas também como uma espécie de retribuição da equipe do filme à cidade, onde parte das cenas foi rodada. A população lotou os 1350 lugares e reagiu muito bem à projeção.

O diretor Daniel Filho, como o também bom ator que é, foi a grande estrela da apresentação antes da sessão começar, mas o depoimento de Nelson Xavier, intérprete de Chico na maturidade, dá pistas do porquê da imensa empatia do público com o personagem. Nelson citou o trecho bíblico “amai-vos uns aos outros” e disse: “Foi uma das bandeiras mais revolucionárias que alguém já levantou na história e Chico Xavier viveu isso à risca”. O viés mercadológico de um ensinamento tão puro fica claro no making-of do filme – em uma reunião para planejar o lançamento massivo da produção (com ao menos 300 cópias), o diretor afirma: “esse é o novo paz e amor”.

É improvável, portanto, que algo com apelo tão direto e popular não seja um estrondo nas bilheterias, independente de sua qualidade. E Daniel Filho, didático, tenta fazer tudo direitinho. Figura histórica do audiovisual brasileiro, com mais de 50 anos de experiência, não é um cineasta genial, longe disso, mas sabe entregar um produto comercial de qualidade – o sucesso indiscutível das duas partes de “Se Eu Fosse Você” está aí para provar. Dessa vez não foi diferente e, partindo da biografia assinada por Marcel Souto Maior e do roteiro de Marcos Bernstein (“Zuzu Angel”, “O Outro Lado da Rua”), dividiu a vida do médium em três partes.

TRAILER DO FILME:

A primeira delas se passa na década de 1910, na infância de Chico na mineira Pedro Leopoldo. Atormentado pela madrinha (Giulia Gam), o garoto atenua a vida difícil conversando com o espírito da mãe (Letícia Sabatella). O padre da cidade (Pedro Paulo Rangel) diz que essa história de ver e falar com os mortos é coisa do diabo e dá conselhos ao menino, como rezar insistentemente ou fazer uma procissão com uma pedra na cabeça. O próximo recorte se dá em 1931, quando Chico, adulto (Ângelo Antônio), começa a psicografar e vê pela primeira vez Emmanuel (André Dias), o espírito-guia que vai acompanhá-lo até o fim da vida. A maior parte do filme se dá aí, quando a fama do médium se espalha e ele tem dificuldades para lidar com a família e demanda de pedidos de cartas e curas.

Essas duas histórias são entrecortadas pela célebre entrevista que Chico Xavier deu ao programa “Pinga-fogo” em 1971, com audiência histórica na TV Tupi. Já uma celebridade, Chico (encarnado por Nelson Xavier com semelhança assustadora) acendeu na época a discussão da vida após a morte, uma polêmica representada com especial força nos personagens de Christiane Torloni e Tony Ramos, inspirados em fatos reais, pais de um rapaz morto num acidente.

“Chico Xavier” tenta não endeusar o personagem e mostra que ele também tinha vaidade e medo da morte. Mas como não colocar em um pedestal alguém que, ao longo de quase um século, escreveu cerca de 450 livros, vendeu mais de 50 milhões de exemplares e doou toda a renda para instituições beneficentes? Nem tudo são flores no filme – o exagero é uma constante, o roteiro, apressado, tem lacunas básicas e a trilha sonora, desastrosa (Egberto Gismonti nunca acerta) –, mas pode-se falar o que for: nada deve importar. “Chico Xavier” promete ser o sucesso que “Lula, o Filho do Brasil” não foi. Até o distribuidor, a Downtown Filmes, é o mesmo. E prepare-se: isso é só o começo.

(Ultimo Segundo)

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