Por Jean Pierre-Lehmann
A queda do Muro de Berlim e a revolução do mercado global que se seguiu emanciparam centenas de milhões de pessoas. Apesar de a censura e várias formas de controlo estatal persistirem em diferentes regiões do mundo actualmente, nunca como agora tantas pessoas neste planeta puderam penetrar nos muros da informação para adquirirem conhecimento e ligarem-se a outras pessoas. Os estónios são membros da UE, muitas crianças da nova elite russa frequentam escolas suíças, ao passo que o chineses estão entre os turistas mais visíveis do Museu Olímpico localizado na cidade onde vivo, Lausanne.
Sim, mas… Apesar de ser justificável a celebração do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim e do progresso realizado pela humanidade, é contudo difícil não sentir tristeza. Porque na verdade, se bem que o Muro de Berlim possa ter sido derrubado, ainda existem muitos muros desafiadoramente de pé e até novos que foram entretanto erigidos.
Em meados do século XIX, o homem de Estado britânico Benjamin Disraeli descreveu aquilo que entendeu serem duas “nações” a coexistir no Reino Unido, separadas por um muro de incompreensão mútua: “Duas nações entre as quais não há relacionamento, nem simpatia; que ignoram de tal forma os hábitos, pensamentos e sentimentos da outra parte que parecem habitantes de zonas diferentes ou habitantes de planetas diferentes. Os ricos e os pobres”.
Actualmente, é bem possível que haja um planeta no qual as elites de Bombaim, Xangai, Dubai, Londres, Nova Iorque e São Paulo convergem para debater interesses profissionais comuns e partilhar o mesmo vinho “vintage”, ao mesmo tempo que se mantêm em ligação com as suas casas, através dos seus Blackberrys ou iPhones. Mas existem ainda centenas de milhões de pessoas que estão globalmente privadas de direitos, e mais de três mil milhões dessas pessoas não têm sequer acesso a uma casa de banho limpa. Parafraseando Disraeli, pode haver um planeta, mas existem dois mundos bastante distintos entre os globalmente incluídos e os globalmente excluídos.
Tal como um mundo sem fronteiras está ainda distante, estamos também longe de uma economia de mercado global justa e aberta. Existem demasiados muros comerciais (a que habitualmente se dá o nome de barreiras comerciais). Os mais perniciosos são os muitos muros que discriminam os países pobres; posso citar um em centenas de possíveis exemplos: as taxas alfandegárias impostas pelos Estados Unidos sobre as importações provenientes de três dos países mais pobres do mundo, o Cambodja, o Bangladesh e o Paquistão, são respectivamente de 16,7%, 15,3% e 9,9%, ao passo que as taxas alfandegárias impostas ao Reino Unido e à França, dois dos países mais ricos do planeta, são de 0,6% e 0,8%. Atendendo a que estas tarifas proibitivas minam os esforços de crescimento dos países pobres, elas acabam por garantir que os muros entre as nações pobres e ricas se manterão compactos e altos. E estes muros incluem-se nos muros iníquos que a Agenda de Doha para o Desenvolvimento – saída da ronda de negociações da Organização Mundial do Comércio – é suposto derrubar. No entanto, depois de ter sido lançada há quase uma década (2001), esta Agenda continua totalmente atolada, com poucas perspectivas de concretização no futuro previsível. Não só os velhos muros comerciais não estão a cair, como há também sinais de que estão a ser construídos novos.
Os muros não se limitam, de forma alguma, à geografia ou ao estatuto económico. Existem múltiplos muros a separar diferentes etnias, religiões e línguas. Além disso, apesar de nas recentes décadas se ter assistido a melhorias na situação das mulheres, continuam a existir muros bastante espessos entre homens e mulheres. À medida que a civilização evolui, a liberdade de escolha para a maioria dos indivíduos – onde vivem, onde estudam, onde e como trabalham, de que forma vivem – deve tornar-se uma meta constante. Assim, os indivíduos devem poder viver atrás de muros, se o desejarem, mas não devem – em caso algum – ser forçados a isso. Enquanto as mulheres de todo o mundo não dispuserem desta liberdade, os muros entre sexos continuarão de pé como um crime contra a humanidade.
Olhando para o futuro, é possível ver que o espectro das alterações climáticas está a erigir novos muros entre Estados. Trata-se de uma situação que não se aplica apenas às políticas e negociações em torno das alterações climáticas, mas que também se observará entre os países vulneráveis que irão vivenciar – ou que estão já a vivenciar – as consequências dessas alterações de forma imediata, e aqueles que vêem esse cenário como um ponto distante num horizonte muito remoto. Em breve serão construídos muros para não deixar entrar os refugiados das alterações climáticas.
Quais as implicações para a liderança empresarial global?
A prática geral das empresas tem sido a de contornar os muros. Apesar da existência do Muro de Berlim, muitas empresas astutas conseguiram realizar grandes negócios na União Soviética. O mesmo aconteceu na África do Sul durante as décadas do muro do Apartheid; os astutos encontraram formas engenhosas de continuar a fazer os seus negócios. Os empresários japoneses, por exemplo, aceitaram até a humilhação de serem alcunhados de “brancos honorários” na África do Sul do Apartheid! Recuando um pouco mais na História, as empresas também conseguiram, obviamente, retirar benefícios da mão-de-obra disponível por detrás dos muros dos campos de concentração nazis.
A filosofia das empresas tem sido aceitar a realidade dos muros. Chamam-lhe “pragmatismo”. Uma vez que já estamos plenamente num novo século e preparados para, em ocasiões como o aniversário da destruição do Muro de Berlim, reflectirmos sobre de onde viemos e para onde vamos, convém que os líderes empresariais encarem os muros de maneira diferente, que pretendam ser parte das equipas de destruição desses muros e renunciem à posição de outrora, que era a de sustentarem os muros. Isto não é só por se tratar da atitude mais responsável e ética a ter; mas também porque é a única forma de assegurarmos a nossa sobrevivência.
Tradução: Carla Pedro
(Jornal de Negócios Online)